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Domingo, Abril 18, 2021

Vou ao supermercado e gasto aquilo que tenho naquilo que preciso

Gil Nunes

Jornalista

A liderança do Sporting, e a conquista da Taça da Liga, afinam por um diapasão de simplicidade que surpreende tudo e todos e que, no fundo, se traduz na mais básica receita para o êxito: ver aquilo que se precisa e adquirir de acordo com o que se pode gastar. E sem mais a acrescentar!
Pedro Gonçalves estava ali à mão de semear. Na liga portuguesa, no Famalicão! Jogador dotado de técnica assinalável com ambos os pés e uma velocidade de execução que surpreende, a sua ascensão como jogador “mais” da equipa num curto espaço de tempo testemunha o bom caminho que o Sporting tem trilhado nos últimos tempos. Afinal era simples!
Também parece simples o desenho de 3x4x3 onde os laterais desempenham papel determinante. Não era necessário contratar-se o melhor lateral do mundo. Era, isso sim, necessário contratar um lateral com capacidade para fazer o corredor, sobretudo dotado de velocidade e de grande preponderância ofensiva. Porro, que marcou o golo do triunfo na final frente ao Braga aproveitando uma desatenção individual de Sequeira, tem aquilo que é preciso. Bem como Nuno Mendes, um elemento que caminho a passos largos para ser opção permanente na seleção nacional portuguesa.
O Sporting tem isto e também algumas falhas, como aquelas que se evidenciaram no início da temporada e que dizem respeito a alguma falta de equilíbrio no processo de transição defensiva. E o Braga tem uma excelente equipa, com potencial para crescer. Saúda-se a “recuperação” de Iuri Medeiros, um esquerdino açoriano que nas camadas jovens chegou a ser apontado como futura pérola a despontar da fábrica de Alcochete. O talento está lá e a capacidade de desequilíbrio individual também. Mas a contratação mais dominante dos arsenalistas é mesmo Al Musrati: grande jogador! Trata-se de um centrocampista pleno de capacidade física e com habilidade técnica para se impor em terrenos mais dianteiros, bem como ser sólido em termos de processo de construção. Isto já para não falar do seu forte remate. O internacional líbio é um jogador com margem de progressão e imenso mercado até porque, ainda por cima, se trata de um jogador bastante jovem. Qualidade indubitável!
No campeonato, os dragões venceram no difícil reduto do Farense e mostraram alguns atributos particulares. Desde logo a estratégia que Jorge Jesus montou no Dragão provou ser conhecedora da realidade do F.C.Porto: o seu forte flanco direito. A forte dinâmica implementada pelo flanco direito. E a constatação de que Manafá (que não jogou frente ao Benfica) é muito mais jogador do que aquilo que se pensa. Porque pode não ser muito hábil no cruzamento largo mas possui uma velocidade considerável que alimenta todo um flanco que dinamiza o F.C.Porto. Depois, a sua articulação com Corona desponta o mexicano para zonas mais centrais onde, sendo ambidestro, consegue proporcionar diversos momentos de desequilíbrio à equipa. No miolo, outra ligação interessante com Otávio, este mais dotado a sair da transição e a conferir lucidez à equipa. É um facto que Otávio e Corona jogam muito um para o outro, e o bloqueio de um traduz-se na desinspiração do outro. É verdade. Mas, lá está, a sociedade estabelecida entre os dois é uma espécie de bastião de um dragão que vai pecando em capacidade de desequilíbrio individual mas que abunda em termos de processos consolidados. A tal consolidação que se vai afirmando como principal adversário do leão rei da simplicidade.
Já na Luz, a perda de pontos frente ao Nacional representou um pequeno golpe (facilmente contrariável) nas aspirações dos encarnados. Mas aqui a questão é mais contextual: com a pandemia de COVID-19 a fazer das suas, todo um planeamento de jogo quase que cai por terra e a disponibilidade do plantel transforma-se numa verdadeira manta de retalhos. É certo que os técnicos são pagos para criarem soluções em face dos problemas mas o contexto nunca é o ideal. Logicamente que é muito cómodo falar-se de crise ou de falta de fio de jogo e nada perdoa a inércia que o Benfica demostrou na parte final da partida. Por aí não. Agora bem que se podia ter adiado o jogo para outra data. Por aí sim. Porque se espera que nenhum surto afete outro clube da mesma forma que afetou o Benfica. É preciso perceber que estamos a lidar com uma situação inédita – pandemia – que, na maior parte das vezes, não tem relação com a própria lei em si. E, nestes casos, o bom senso deveria ser lei. Porque são estes detalhes que desafinam as contas finais de qualquer competição.

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