Sexta-feira, 8 Dezembro 2023

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Sopas de cavalo cansado

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publicado na edição em papel de 21/10/2022

É a tal diferença decisiva nas contas finais: o crescimento das segundas linhas. E a necessidade imperiosa de se rodar a equipa tendo em conta o avolumar das competições e o refrescamento que tem, obrigatoriamente, de se fazer. Os “três grandes” tiveram adversários distintos, mas houve uma característica que sobressaiu: o FC Porto passou nas “calmas”, o Benfica qualificou-se pelo “buraco da agulha” e o Sporting disse adeus à Taça de Portugal. Coincidência? Ou talvez não. Porque o FC Porto gere melhor a situação. 

Comecemos pelo Benfica. Roger Schmidt já percebeu onde está o problema: o Benfica tem um excelente onze (leia-se treze ou catorze sendo que a posição de central está devidamente salvaguardada) mas não tem um banco com o mesmo nível de qualidade do núcleo titular. Ora, perante um Caldas de qualidade inferior mas estável e bem organizado no seu jogo, havia dois caminhos: o primeiro passava por rodar grande parte da equipa tendo em conta o somatório de desgaste das competições nacionais e europeias; ou então manter tudo como está, sendo que esta última opção seria bater de frente com o problema e eventualmente capitalizar a opinião pública contra si. Schmidt optou por uma gestão intermédia mantendo elementos decisivos como Enzo, Florentino, António Silva, Grimaldo ou João Mário no onze – só faltou Rafa – colocando em campo verdadeiros complementos desse tal esqueleto principal. Resultado final: uma conjugação de mérito do Caldas somada à dificuldade do Benfica em definir no espaço entrelinhas e acrescentada de natural fadiga ia dando eliminação da Taça de Portugal logo na primeira ronda. E sem nada a dizer. 

É claro que Schmidt logo tentou – e bem – tapar o sol com a peneira e argumentar que não seria nenhum cataclismo o Benfica ser eliminado pelo Caldas. De facto, não seria. Mas seria grave. E o mais preocupante é que já se percebeu que o Benfica tem o seu “calcanhar de Aquiles” na própria gestão da equipa e na ausência de segundas linhas fiáveis. É claro que também existe o argumento – legítimo – de que o Benfica teve de acelerar no início da temporada dada a vital necessidade de se apurar para a fase de grupos da Liga dos Campeões e apresentar rendimento assinalável na liga. Componente financeira a quanto obrigas. Muito embora não tendo propriamente culpa no cartório, certo é que Schmidt – que no decurso dos jogos faz poucas substituições e percebe-se porquê – tornou evidente aquilo que já não dá para disfarçar: o Benfica tem um problema ao nível das suas segundas linhas. E bicudo. 

No caso do Sporting, a questão tem contornos semelhantes. É racional e justo dizer-se que os leões necessitam de uma melhoria no seu jogo, até para não acontecer aquilo que se passou na seleção, que ganhou em 2016 de uma forma que agora – pela evolução dos tempos e potenciação de novos jogadores de novas gerações – se tornou irreplicável. Ou seja, convinha ao Sporting apresentar novos argumentos táticos se bem que a raiz do problema resida num setor específico: o meio-campo. Se os plantéis anteriores apresentavam um Palhinha e Matheus Nunes que tinham em Ugarte e Daniel Bragança o complemento perfeito, este ano o caminho é diferente: porque Bragança tem uma lesão grave e Sotiris está longe de ser um produto acabado. E mesmo a deslocação de Pedro Gonçalves para zonas mais recuadas representa um remendo e nunca uma solução credível e permanente. Ou seja, noutra leitura, a equipa tem problemas no meio-campo sobretudo quando tem de rodar. Não é por perder frente ao Varzim que o Sporting perde o mérito de ter batido Eintracht e Tottenham. Não é por aí. O problema reside no meio-campo e também na incapacidade de bloqueio das bolas paradas defensivas – algo que o Desportivo de Chaves expôs de forma evidente e agora é positivamente replicado por todos os demais adversários dos leões.

Já o FC Porto não é uma equipa perfeita mas sabe de antemão a necessidade de fazer crescer as segundas linhas. Sempre soube com Sérgio Conceição. E contrata na perspetiva de crescimento dentro do contexto da equipa e daquilo que ela necessita. Porque Namaso, Bruno Costa ou Fábio Cardoso estão calibrados no seio do processo de jogo e, mesmo a nível emocional, não se tomam como segundas linhas mas sim como soluções. Ou seja, mesmo a forma como o FC Porto faz as substituições nos jogos, com uma ou outra situação de “injustiça” em face do rendimento que está a ser apresentado, é pensada de acordo com um paradigma de evolução que sobressai nestas partidas e competições onde a rodagem é uma componente obrigatória para a máquina continuar calibrada. 

Na realidade, não é uma questão de se ter um núcleo duro nem tão pouco de se ter melhor ou pior plantel. É lógico que convém que não haja extremos, até porque por aí não há gestão que resista. Agora, o que importa é perceber-se o longo-prazo de um paradigma competitivo que impõe que só os que melhor se adaptam conseguem vencer. Todos. Com primeiras e segundas linhas sendo que, num contexto ideal, as segundas linhas acabam por também ser primeiras. Prevalece a equipa. Como um todo. Uno, indivisível e triunfante. 

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