Sexta-feira, 24 Maio 2024

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Seleção: há razões para estar otimista

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É duro perder a qualificação nos últimos minutos. Ainda por cima em nossa casa e perante o nosso público. Há, no entanto, algumas atenuantes que nos levam a concluir que a seleção está no caminho certo (em termos de princípios de jogo) com a ressalva de que tudo poderá sucumbir caso não se perceba que a gestão tem de ser feita de forma mais arrojada. Ou seja, sem medo de se perder a qualidade por se retirarem alguns, pois tal pode ser vantajoso nas contas finais. No resultado. 

O fator gestão entrou claramente em jogo nestas contas da Liga das Nações. Foram 72 horas de diferença entre o jogo da Chéquia – viagem incluída – e o jogo da Espanha. Nesse contexto, mexer apenas três peças no onze inicial representa um risco tremendo, ainda por cima quando existe o previsível cenário de que a Espanha faz da circulação de bola um dos seus principais atributos. E vem à tona um princípio elementar: é sempre mais cansativo andar atrás da bola do que tê-la em nosso poder. Por conseguinte, há dois aspetos que são verdadeiros mas que se combinam entre si: por um lado, é verdade dizer-se que a Espanha é uma seleção pouco pragmática, com excesso de circulação e com lacunas em termos de penetração no último terço; acontece que também é verdade que essa circulação é altamente desgastante para o adversário. A água espanhola pode ser bastante mole mas tanto bate até que fura.

Num futebol atual que depende muito do fator guarda-redes, há algo que não se entende. Que nos deixa atónitos. Como é que é possível que Unai Simón, com toda aquela qualidade, ainda esteja no Atlético de Bilbao? Flexibilidade, um apurado jogo de pés, controlo de profundidade e uma tendência para fazer a diferença nos momentos decisivos dão toda a razão a quem um dia dos postes espanhóis retirou De Gea. E fez a diferença no último minuto, parando um remate certeiro de Cristiano Ronaldo. Decisivo. 

Portugal também não se pode queixar dos guarda-redes. Apesar de ter defendido mais baixo do que aquilo que geralmente acontece no FC Porto – houve ali cruzamentos que eram dele – a aposta em Diogo Costa potencia a equipa portuguesa em termos ofensivos. Tal aconteceu no pós-Sérvia, onde Fernando Santos também percebeu algo de relativamente elementar: se há qualidade técnica para fazer mais e melhor na linha da frente, então o pivô defensivo tem de estar mais apto nesse sentido. Daí Rúben Neves. E daí William Carvalho, tremendamente hábil em descobrir linhas de passe em zonas altamente povoadas, o que beneficia uma circulação mais criativa e, no caso da partida frente à Espanha, também uma circulação mais direta. Que quase conduziu Portugal à vitória no primeiro tempo. 

Em Braga, e numa primeira parte em que a equipa portuguesa não quis cair no perigo da transição ofensiva adversária, ressalve-se o condicionamento espanhol em torno da ligação Cancelo-Bernardo e da maior participação de Bruno Fernandes na dinâmica ofensiva, fosse através do aproveitamento das linhas de tiro ou na busca pela profundidade dos colegas. E aqui chega-se a um ponto essencial: por muito que com Rafael Leão a exploração da profundidade seja mais violenta, certo é que a solidez que Jota apresenta no domínio defensivo vale pontos. E o jogo teve esse fator determinante: não era suposto Jota ter sido substituído. Era suposto ter continuado e ajudado a bloquear o corredor direito espanhol, que foi amplamente exposto no lance do golo, com culpas diretas para Rafael Leão nesse lance.

Não há razões para se entrar em paranoia. Ainda há quatro dias a seleção banalizava a Chéquia, marcando golos de pleno envolvimento coletivo e de grande qualidade ofensiva. Aliás, basta dar razão à matemática: em quatro partes, Portugal esteve muito bem em três, baqueando apenas nos últimos 45 minutos frente a uma das melhores seleções do mundo. No entanto, a questão da gestão tem de ser convenientemente analisada até porque no mundial os intervalos entre os jogos vão também ser muito curtos. Se no rescaldo do jogo frente a Sérvia, Fernando Santos percebeu que tinha de mudar a matriz de jogo e puxá-la mais para a frente, há também motivos para estar otimista e estar confiante de que o selecionador não vai ser casmurro e, por isso, vai optar pelo caminho da gestão controlada da equipa ao longo dos jogos. Benefício da dúvida a um selecionador fiel aos seus princípios mas que soube ser flexível o suficiente para garantir uma difícil qualificação para o mundial em cenário de play-off. 

É óbvio que há jogadores que ajudam. Se há algo que une os jogos frente à Sérvia e frente à Espanha é o facto de Otávio não ter jogado. Com capacidade para atuar em vários sistemas e com capacidade para pressionar de forma inteligente ao longo de todo o tempo de jogo, a sua ausência fez-se sentir. Porque se trata de um jogador titular. E porque se trata de um jogador que vai ser de tremenda importância no mundial. Venha Otávio. 

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