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Domingo, Abril 18, 2021

Porquê sempre Corona?

Gil Nunes

Jornalista

Vítor Bruno, treinador-adjunto do F.C.Porto, surpreendeu na flash-interview do Sporting de Braga-F.C.Porto ao afirmar categoricamente que Corona era o melhor jogador da sua equipa. E que, por isso, era tão fustigado pelos adversários. Situação que não deixa de ser verdade: há uma certa ideia de que, bloqueando Corona, também o F.C.Porto emperra, o que também não deixa de ser verdade. Sem dúvida.

O alto rendimento do mexicano no F.C.Porto tem o devido patrocínio de Sérgio Conceição que, ao longo dos anos,  percebeu que as características de Corona poderiam ser mais úteis à equipa caso se potenciasse a sua versatilidade e, também, um atributo que torna o mexicano distinto de todos os demais jogadores: a sua ambidestria. Corona joga tão bem com o pé esquerdo como com o pé direito. Isso torna-o um jogador especial. Diferente.

O mexicano tem, assim, uma técnica assinalável, mas um pouco diferente do tecnicista convencional. A ambidestria é de tal forma precisa que Corona está sempre enquadrado com o jogo. Como se criasse um círculo em torno de si próprio e todo o campo estivesse ali à mão de semear, dispensando a habitual ação de enquadramento com a bola que, de forma automática, revela a intenção de passe e dá margem de manobra a quem defende. Ou seja, a vantagem de quem é ambidestro é mesmo essa: o passe é sempre imprevisível e o defesa está sempre um segundo atrasado em relação àquilo que vai acontecer. Muito difícil de contrariar.

Acontece que Corona chegou ao F.C.Porto com rotinas de ala (com movimentos interiores é certo) mas com capacidades inatas para ser bem mais do que isso. Se nos primeiros anos nunca foi titular indiscutível, a aposta do treinador manteve-se firme e o trabalho deu frutos: hoje, Corona é um desequilíbrio em permanência e pela positiva, sobretudo quando a dinâmica da equipa o coloca de frente para o jogo e em posição central. A evolução de Corona acompanhou a evolução tática da equipa, sendo que sobressaiu também uma ligação especial criada em parceria com Otávio. E o rendimento (ou falta dele) de um afeta naturalmente o outro.

Depois, há o fator do contexto a ter em linha de conta. E eu traço um paralelo com o que aconteceu com Bruno Fernandes no Sporting. O facto de Bruno Fernandes marcar uma trintena de golos por época faz dele um jogador especial, é certo, mas também representa uma anormalidade, pois a ordem natural das coisas não se deve traduzir no facto de um médio marcar tantos golos. Ou seja, por muito que o cenário seja altamente positivo para um jogador e o benefício seja direto para a equipa, o contexto pode revelar uma dependência excessiva, e as dependências excessivas geralmente contrariam as tendências de desenvolvimento.

Se Corona é muito fustigado pelos adversários, como acontece, tal deve ser punido em conformidade pelos árbitros. Como deveria estar a acontecer. Agora, também é verdade que o excesso de jogadores em cima do mexicano pode representar outra coisa. O F.C.Porto deveria gerar mais focos de desequilíbrio individual, para repartir os defesas pelas aldeias e aliviar a pressão em torno de Corona. É lógico que as coisas não são assim tão lineares e a dinâmica coletiva dos dragões é afinada e precisa. O que vem ao encontro de um pensamento primário: não faria mais sentido ter um dragão menos compacto taticamente mas com uma maior capacidade de desequilíbrio individual? Porque a conquista obsessiva pela perfeição pode condicionar os benefícios da imperfeição controlada.

Frente ao Braga, os dragões tiveram algum azar e em condições normais teriam sido os vencedores da partida. Com Marega de regresso ao onze, o F.C.Porto readquiriu capacidades ao nível da transição defensiva e condicionamento da primeira fase de construção dos arsenalistas. No entanto, a principal nota prendeu-se com a inclusão de Luis Diaz no onze e a tendência para se colocar o Braga a jogar a toda a largura do campo, algo a que os minhotos são um pouco adversos, se bem que a sua capacidade ofensiva seja digna de registo. O Braga ataca forte e bem e, mesmo com alguma sorte à mistura, tal atributo valeu-lhe o empate já nos minutos finais.

E depois houve o fator Corona. Sobretudo no segundo golo. É certo que o Braga se colocou a jeito para o um contra um e o mexicano não facilitou um milímetro. E Corona voltou a provar que é um jogador especial. No critério, na definição, no arranque e na leitura de jogo. E uma questão particular: se o lance tivesse ocorrido do lado direito do campo, o desfecho teria sido exatamente o mesmo. Sem tirar nem por. E é por isso que os ambidestros são tão raros. Há que salvaguardá-los, protegê-los. E metê-los a jogo!

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