Domingo, 14 Abril 2024

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Instabilidade nos Bombeiros Voluntários de Crestuma 

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Problemas no seio dos Bombeiros Voluntários de Crestuma culminaram num protesto dos bombeiros, que abandonaram as suas funções. Os operacionais falam em má gestão e falta de condições de trabalho que chegam a comprometer o socorro à população. A direção não se pronuncia. 

Veio recentemente a público a atitude de protesto dos bombeiros de Crestuma, face aos problemas que se fazem sentir na corporação. Na noite de 3 de junho, os bombeiros pousaram os capacetes no chão numa ação simbólica e abandonaram o quartel. No entanto, na segunda-feira seguinte, já a situação parecia normalizada, com a maior parte dos bombeiros de volta ao trabalho.  

O protesto terá sido desencadeado por desentendimentos entre comandantes e direção. O anterior comandante, Bruno Fonseca, abandonou a posição ao fim de pouco mais de um mês, passando o testemunho a Sandrina Pereira. No entanto, esta deixou igualmente o cargo ao fim de dois dias. Seguiu-se o fecho do quartel.  

Se alguns dos elementos da corporação dizem que a situação já está a ser resolvida, outros há que garantem que a questão não é assim tão simples. E as tensões no quartel já vêm de trás. Além dos problemas no diálogo com a direção, falam em abusos verbais no local de trabalho e camaratas em más condições – apesar dos cerca de 300 mil euros que foram atribuídos para obras.  

No entanto, a maior preocupação, comum a todos, é a de o serviço ser realizado por bombeiros sem a formação ou experiência necessária. Apenas bombeiros prontos e maiores de 18 anos podem integrar equipas de socorro, mas na prática, não é isto que acontece, dizem. Bombeiros ainda em formação, que não têm o curso que lhes permite realizar emergências, fazem-na de qualquer modo, apesar de teoricamente não poderem tripular ambulâncias. “Há cadetes que vão para acidentes, para fogos, sem formação. Estamos a falar de miúdos, menores de idade, sem responsabilidade nenhuma. Bombeiros estagiários que pegam em ambulâncias, vão fazer urgências, com um par de dias de experiência apenas. Ninguém se responsabiliza por isto, e já houve acidentes com viaturas nestas situações.” 

“Estamos a brincar com o socorro das pessoas”

“Por vezes, quando é pedida uma ambulância, ou recusam por falta de meios, ou uma emergência chega a esperar duas horas pelo socorro, como já aconteceu”, conta ao Gaia Semanário um bombeiro que pediu para não ser identificado. Segundo alguns elementos, esta situação é recorrente. “A população de Crestuma não tem noção de há quanto tempo se anda a brincar com o socorro delas.” Queixam-se de falta de dinheiro para material, gasóleo para abastecer as viaturas, para fardas. Mas, acima de tudo, falta de pessoal para cumprir os serviços mínimos, por vários motivos. “Não tem bombeiros porque ninguém aguenta ficar ali”, há quem justifique. 

“Faltas constantes”, “piquetes inexistentes”, “elementos que nunca aparecem no quartel”, são termos usados para descrever o que se passa dentro da corporação. E por que se mantém esta situação? “Porque, se forem embora todos esses elementos, o quartel deixa de ter os elementos obrigatórios por lei para estar aberto.”  

Falta de condições de trabalho
No caso dos bombeiros assalariados, existem relatos de atrasos nos ordenados e inexistência de contratos de trabalho, além de horários sobrecarregados por falta de pessoal. Um elemento que pertenceu à corporação relata: “éramos obrigados a estar sempre em alerta, nunca podíamos descansar porque a qualquer momento podíamos ser chamados para fazer um serviço. Chegavam a ser 12, 13, 14 horas, sem pausa para refeição.”

Bombeiros que estão ou estiveram na corporação alegam que existem bombeiros assalariados dispensados para serem substituídos por voluntários, pagos pela Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC), de modo a que a corporação receba o dinheiro devido pela prestação de serviços “sem pagar a ninguém para o fazer.” Os voluntários, que passam a desempenhar as funções dos bombeiros profissionais, deixam assim de estar ao serviço no quartel, ficando comprometido o auxílio à população. “Bombeiros que, por exemplo, estão destacados para combate a incêndios, andam a fazer altas hospitalares. No caso de uma emergência não há ninguém para responder.” E rematam: “Os que se recusam a participar nesta situação são ameaçados ou convidados a sair.” 

A insatisfação com as condições faz com que muitos bombeiros abandonem a corporação. Ou, pelo menos, tentem. Dizem que a direção cria obstáculos propositadamente, como, por exemplo, atrasar deliberadamente pedidos de transferência para outras corporações. “Têm medo de ficar sem pessoal.”  

Ao tentarmos perceber junto de outras corporações se era comum terem de assegurar o serviço que deveria ser assegurado pelos bombeiros de Crestuma, não obtivemos resposta. Apenas os Bombeiros Sapadores de Gaia responderam que essa “é uma situação normal” e que “a gestão das corporações é feita de modo a que, quando umas não têm disponibilidade para responder a determinadas situações, se destaquem outras.” 

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