Sexta-feira, 24 Maio 2024

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FC Porto: uma questão de engenharia

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O FC Porto venceu o Leverkusen de forma justa. Seja como for, parece haver aqui um estado de alma. Algo que tem de ser trabalhado no balneário: os dragões não entram como devem nas partidas. Dão sempre minutos de avanço ao adversário que, indevidamente controlados, podem desaguar num problema grave mais lá para a frente. Mas tal raciocínio não retira uma pinta de mérito: os dragões venceram porque foram melhores. Ganharam bem. 

Mais do que uma questão tática, o FC Porto – Leverkusen ficou marcado pela questão da ansiedade algo que, em jogadores mais jovens, provoca aquela hesitação que pode ser aproveitada por uma equipa menos forte mas mais experiente. Em termos concretos, as crateras do miolo portista foram causadas por precipitações na dinâmica ofensiva sem a devida cobertura na retaguarda, situação que só se controla quando os níveis de tensão estão no ponto. Nem muito displicentes nem muito salientes. Porque falar de futebol é falar de dinâmicas e é falar de sistemas e, tal como nos ensina a engenharia, quando uma peça do sistema está desequilibrada toda a restante estrutura sofre interferências. 

Falar do FC Porto da atualidade é, por isso, falar de um conjunto de jogadores jovens que precisam de minutos para assimilar e controlar de forma eficaz toda a ansiedade. E readquirir níveis de confiança: uma das boas notícias do embate frente ao Leverkusen foi a exibição de João Mário: mais seguro, mais afoito no ataque, conseguiu imprimir a corrente ofensiva de que o FC Porto tanto precisa nos corredores. E outra boa notícia é a recuperação plena de Otávio: na segunda metade, jogando a partir do corredor direito e contribuindo para uma linha de pressão que impediu o adversário de construir ou de sair em transição, a sua entrada valeu também pela questão emocional. Dá segurança à equipa, sacode a ansiedade e faz os colegas renderem mais. E, se quisermos ir mais além, podemos também alargar o pensamento a uma seleção que não rodou como devia frente à Espanha e que careceu de um jogador taticamente apto a disfarçar esse handicap: os dois últimos desaires da seleção tiveram um ponto em comum – Otávio não jogou. E não há coincidências. 

Com Uribe a complementar Otávio numa espécie de muralha de proteção, os dragões soltaram-se e adquiriram uma supremacia natural. A velocidade imposta quer por Zaidu (Wendell nem estava a jogar mal) quer por Galeno confundiram um adversário que teve, naturalmente, de ser mais prudente. Mas estavam reunidas as condições para o talento vir à tona: uma vez mais, a leitura de jogo de Taremi esteve em evidência. Deslocação precisa para o lado direito do ataque e perfeita noção do tempo de entrada de Zaidu no flanco oposto. Porque são as pequenas coisas que contam. Tal como no segundo golo, em que fletiu para o meio e, de forma paciente, aguardou pela diagonal de Galeno para o servir de bandeja. 

Dizer-se que com Taremi em campo o FC Porto resolve os seus problemas de criatividade é altamente redutor. Porque o iraniano, sem ser propriamente um tecnicista, tem uma visão ampla e “fora da caixa” que faz com as situações se tornem simples quando até são bem complexas. Descontrução em vez de construção no meio de um conjunto de fintas diabólicas. O que, em último caso, vai dar ao mesmo. Resulta em golo. 

Mas não vai dar em maior ou menor criatividade. Ora, se o FC Porto pós- Vitinha carece de um elemento que interprete o jogo e o defina de acordo com a sua linha de pensamento, há formas de se ultrapassar o problema que até pode bem não o ser. Mais do que a questão tática (ter losango, um “oito” ou um falso “oito”) o FC Porto procura colmatar com intensidade e pressão constante e, para tal, necessita de ter dois elementos fundamentais em seu poder: segundas linhas aptas e preparadas (algo que gera a dúvida no Benfica, por exemplo) e pressão permanente, com predominância no trabalho dos laterais que, de forma geral, colam nos laterais contrários e colocam os dragões próximos da área contrária e a propiciar o erro do adversário. Daí que a reconquista de confiança de João Mário e a recuperação de Manafá sejam tão importantes; daí que a estabilização do corredor esquerdo – com a potenciação de Wendell e a gestão na utilização de Zaidu – sejam fundamentais. Porque, mais do que revoluções, o FC Porto está assente num sistema complexo que carece de afinação constante. Nunca de revoluções. Sempre com jovens a caminho de uma afirmação segura e sem medo da pressão. Se o Rio Ave e o Brugge provocaram rombos no casco? Sim, provocaram. Mas a solução não passa por se substituir o navio. Nem tão pouco o comandante Sérgio. 

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