Sexta-feira, 24 Maio 2024

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Cenas e Contracenas

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1. SÃO VÁRIAS AS NOVIDADES LITERÁRIAS que têm por protagonistas poetas gaienses ou a viver e a trabalhar em Gaia. O cirurgião-poeta João Luís Barreto Guimarães, vencedor do Prémio Pessoa 2022, está presente nos escaparates de todas as livrarias desde o início do ano, com “Aberto Todos os Dias”, editado pela Quetzal. A seu lado, embora com presença mais discreta, está outro autor gaiense, que vem também enriquecer a oferta de poesia contemporânea em língua portuguesa. Os seus primeiros livros, “Quase Poesia” (2017) e “Poemas da Inquietude” (2019), foram acolhidos com enorme agrado por uma vasta comunidade de leitores, sendo de antever que o mesmo suceda com esta nova incursão do autor por este género literário. Fique já a saber de quem falamos, através das notas seguintes.

2. JOSÉ LUÍS GUIMARÃES (filho do poeta, músico, encenador e autor teatral José Guimarães), arquiteto, professor e investigador universitário, com uma atividade artística diversa e multifacetada, transporta um passado verdadeiramente inspirador que remonta à sua infância e pré-adolescência. Iniciado na poesia, na música e na canção, escreveu os seus primeiros poemas aos sete anos de idade e compôs a primeira canção aos dez, quando era um dos membros da primeira banda infantojuvenil portuguesa (“A Comandita”), que encantou pequenos e graúdos nos anos 1971 a 1980, arrastando multidões nos espetáculos “ao vivo”, alcançando êxitos discográficos e batendo recordes de concertos realizados. Autor de diversos projetos de arquitetura publicados (e premiados!), bem como de diversas comunicações nas áreas da habitação medieval, história e cultura arquitetónica, cenografia e arquitetura experimental, é também criador de muita pintura inédita e de desenhos igualmente por mostrar. É também compositor e “letrista” de inúmeros fados, canções e marchas populares, sendo de sua autoria a Marcha de São João de Vila Nova de Gaia (2020), cidade onde reside e na qual estreou recentemente (2021) o seu primeiro espetáculo de teatro de revista à portuguesa (“Vem à Revista”), como autor do texto, música, figurinos, adereços e cenários, cuja receção faz augurar novos sucessos em projetos futuros. Após esta experiência, que o levou a fazer um percurso humorístico de visita pela cidade da margem esquerda do rio Douro junto à foz e pelo país que somos, composto por quadros populares e satíricos, divertidos e de grande atualidade, pensando o “triste” quotidiano das nossas vidas rindo à gargalhada, regressa de novo aos escaparates das livrarias com a publicação deste seu terceiro livro de poesia, também ele sob a chancela da editora Âncora como os dois outros, onde se afirma definitivamente como poeta. E mais uma vez percebe-se na sua poesia toda a criatividade que vai espalhando nos vários domínios artísticos que explora, como se fossem mundos que se sobrepõem, se entrelaçam e se fundem no universo das sensações.

3. É COMUM DIZER-SE QUE A POESIA não é exclusiva da literatura, havendo poesia nas diversas artes plásticas, na música, no teatro e nas mais diferentes manifestações artísticas onde se deposita a vontade de provocar no leitor ou no espectador uma experiência sensorial. E no caso de José Luís Guimarães também se pode afirmar que na (sua) poesia há arquitetura, cenografia, pintura e teatro… A sua poesia tem uma paleta de cores vivas, que se fundem em tonalidades múltiplas de suaves matizes em degradê, com ritmos, andamentos e silêncios claros de uma musicalidade própria, tecendo histórias de vida em palcos que se abrem dentro de nós, sob cenários que somos levados a construir nas emoções que se vivem em cada verso. Neste novo livro os seus poemas estão divididos em duas partes distintas (Vice e Versa), os primeiros mais sombrios e agressivos, os segundos mais luminosos e dóceis, mas todos eles com uma estrutura rítmica e harmónica equilibrada, sem versos livres, sempre com rima e métrica presentes, combinando sons, ritmo e melodia, que encerram imagens concretas e de contornos bem definidos em universos emocionais contraditórios saídos da alma de um poeta de emoções vividas por dentro da pele, num corpo quase em carne viva. Mas embora sob estados de alma díspares, vividos em contextos radicalmente opostos, os poemas formam um corpo uno, com uma profundidade quase visceral, nascida das entranhas. Na primeira parte (Vice) somos levados a percorrer árduos caminhos sem retorno, com destinos sofridos, desbravados pelo desamor nascido do ciúme, da traição, do abandono e do desespero, da ausência de afetos e da desesperança, num grande turbilhão de sentidos. Na segunda parte (Versa) somos encaminhados por doces e coloridos territórios mágicos do amor, nascidos do fogo da paixão, da volúpia do desejo, da entrega sem restrições num tresloucado carrocel luminoso de uma feira popular de almas em comunhão.

4. AS IMAGENS QUE A POESIA de José Luís Guimarães transporta provocam sensações quase sinestésicas, encantatórias, que se manifestam em representações que emergem de palcos imaginados, de partituras de melodias nunca inventadas, de pinturas e desenhos jamais admirados que retratam arquiteturas por criar, em cenários de teatro onde os atores somos nós, os leitores, usufrutuários de histórias que nos têm por protagonistas absolutos. É o teatro por dentro da poesia, ou Vice-Versa, sob cenários produto psicológico do nosso imaginário, que se arquitetam em torno das histórias vertidas nos versos feitos de cor e música, vividos por corpos, rostos e almas por nós concebidos no mais íntimo do que somos.

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