Domingo, 3 Dezembro 2023

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Bandas de garagem dão música ao município

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A iniciativa pretende dinamizar culturalmente Gaia e dar a conhecer artistas com algum tipo de ligação ao município. A banda vencedora tem como prémio atuar no festival MEO Marés Vivas 2022. Este ano, os contemplados foram os SAIA.

Realizou-se a 6 de maio o Concurso Bandas de Garagem do Município de Gaia, no Centro Cultural e Social do Olival. Para participar, era necessário que pelo menos dois elementos das bandas cumprissem os seguintes critérios: deviam ter entre 13 e 30 anos e alguma ligação a Gaia, seja o facto de serem naturais do concelho ou aí trabalharem, estudarem ou residirem. Para participar era necessário entregar uma maqueta com três temas originais. 

No entender de Elísio Pinto, vereador da Câmara de Gaia, esta é “uma ótima oportunidade para os artistas alavancarem conhecimentos e projetos musicais”. Conta-nos que a participação foi grande; candidataram-se 11 bandas, das quais cinco passaram à final. E assim foi: Incoming Fire, Miguel Lunet & Capitão Óbvio, SAIA, Code Valor e MAOS foram as bandas que atuaram na noite de sábado, perante o júri composto por João Couto, NOA e Paulo Andrade, todos eles com percurso de relevo na música. 

As opiniões das bandas quanto a esta experiência parecem unânimes. Ren, vocalista da banda de rock alternativo Code Valor, destaca uma “equipa impecável”, para além de elogiar a luz e o som, e, claro, o “bom ambiente”: “Todos nos demos bem e todas as bandas estiveram bem, cada uma dentro do seu género.” Conta que já é habitual participarem neste tipo de iniciativa: “o importante para nós é agarrar todas as oportunidades de estar em cima de um palco.” Também os Incoming Fire já não são novatos nestas andanças: “[Participar em concursos] é bom porque permite-nos tocar em bons palcos, com bom som, bons técnicos, e recintos com mais gente”, conta ao Gaia Semanário André Medeiros, guitarrista da banda que mistura rock clássico, soul e blues. E o que os leva a participar é o mesmo: “Gostamos de tocar, seja onde for.” Ambos os músicos falam num público bastante recetivo. Cada banda podia levar até vinte pessoas, o que proporcionou um auditório “não cheio, mas bem composto”, diz Ren. Para André, “foi uma comunhão muito fixe, não só com o público, mas também com as outras bandas todas.” O objetivo, diz, era o de serem vistos e que mais pessoas passassem a conhecê-los, e acredita que foi cumprido. O trio de músicos começou como banda de covers, mas cedo sentiu vontade de criar músicas originais. André menciona como influências Royal Blood, Queens Of The Stone Age ou Red Hot Chilli Peppers. 

No final das atuações, os favoritos do júri foram Miguel Lunet e Capitão Óbvio – projeto entre o rock e o jazz, com canções ao piano em tom de conversa, estilo a fazer lembrar algo entre Jorge Palma e Miguel Araújo – e SAIA, ambos projetos cantados em português e com um som mais suave, mais afastado da esfera rock que abrangia – com as devidas diferenças no peso – os outros três concorrentes. No “desempate”, saíram vitoriosos os SAIA, que se juntaram assim aos vencedores das edições anteriores, Traço (2019) e 100 Aura (2021).

SAIA: “música para uma pessoa se divertir e sentir”

Para os grandes vencedores desta edição, os SAIA – compostos por Gaio, Barros e Jay – esta foi uma estreia a nível de concursos. Mas concordam com os outros artistas que “são ótimas plataformas para dar visibilidade às bandas”. Esta oportunidade veio mesmo a calhar, já que lançaram este ano o primeiro EP, “Manual do Amor”, e procuravam formas de divulgar o seu trabalho.

A banda foi formada no verão de 2019. Tudo começou numa casa no Monte da Virgem, onde passavam os verões, e começaram a experimentar. Aí foi “o início da nossa viagem musical, onde começamos a dar os primeiros acordes e a praticar as primeiras músicas”. Têm também aulas de canto em Gaia, no edifício da tuna musical “A Vencedora”, em Vilar de Andorinho. 
A pandemia permitiu-lhes trabalharem mais “nas sombras” e irem aperfeiçoando o seu som, mas só agora começaram a estar realmente no ativo, lançar o EP e dar concertos. 

Para Gaio, “foi fácil tocar aqui. Houve boa organização, já estava tudo muito bem alinhado, só tivemos de fazer a nossa parte”. E essa parte foi, segundo o próprio, tocar com muita energia em palco e trazer um ambiente “de festa”, ao qual o público correspondeu. Para a banda, foi uma experiência interessante devido ao “mix” de convidados, de universos musicais variados, mas que vieram com espírito aberto para conhecer coisas novas. 

No que toca a comparações com Capitão Fausto ou Azeitonas, reconhecem algumas semelhanças, mas acreditam que existem características próprias que os distinguem: “Temos um ritmo de bateria muito marcado, a nossa música dá uma sensação de alegria, vontade de mexer, bater o pé. São músicas muito dançáveis.” No que toca a influências, todos ouvem coisas diferentes, mas Gaio tenta esclarecer: “O Jay tem mais influência de música disco, 80’s, coisas mais ritmadas. Eu sou mais música comercial, John Mayer ou James Bay. E o Barros gosta de rock mais antigo, como GNR, Paulo Gonzo.” 

Consideram tarefa difícil definir o seu som. Tentam: “Banda de pop dançável”, “toques de disco e funk”, concluem que “é difícil pôr isso numa caixa. Há muitos elementos, muita coisa a acontecer dentro da nossa música.” Gaio resume: “Música ligeira portuguesa, música para uma pessoa se divertir e sentir alguma coisa.” E Jay diz esperar que “toda a gente encontre algo de si na nossa música.”

Garantem que, no seu concerto no Marés Vivas – ainda sem dia certo –, vão dar o seu melhor para assegurar que toda a gente se diverte, e “mostrar o porquê de termos ganho este concurso.” 

A noite teve ainda uma atuação muito especial da Banda Sem Nome (ainda), que recebeu uma menção honrosa do júri. 
Este projeto musical, liderado pelo professor Luís Baião, começou em 2015 e está integrado num projeto maior, chamado “Sim, somos capazes”, que trabalha a transição de jovens com deficiência intelectual para a vida adulta. “Nós trabalhamos o sonho deles. E isso pode ser, por exemplo, arranjar um emprego, ou fazer parte de uma banda.” E é possível pô-los a fazer música e, com “estratégias simples”, incluir toda a gente, “mesmo quem tem falta de ritmo, ou não consegue ter total atenção ao que faz.” Luís Baião diz que a atuação foi muito aplaudida, e teve, como sempre, um forte impacto no público, porque os espectadores “não estão á espera que pessoas com deficiência sejam capazes de fazer aquilo”. Diz que qualquer concerto é um grande prazer para este grupo de jovens e que aumenta muito a sua auto-estima, pois mostra que também eles são capazes de fazer coisas. “Não é tão complicado assim tornar as coisas acessíveis e quebrar barreiras, porque este grupo de jovens fá-lo”, remata o professor.

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