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Vila Nova de Gaia
Quinta-feira, Junho 17, 2021

Avenida da República

João Paulo Silva

Professor

Silêncios do Vírus: Capitalismo, Escravatura e Racismo

Vivemos tempos estranhos na espuma dos dias em que instrumentos de propaganda substituem o jornalismo puro e duro. E, pasme-se, é graças ao COVID que se fazem luz sobre algumas realidades que insistimos em esconder.

Numa sociedade capitalista como a nossa e pegando nos olhos de Marx temos dois tipos de pessoas: as que recebem dinheiro por disponibilizarem o seu tempo e os que, com isso, acumulam capital. Poderíamos escolher palavras como trabalhador e patrão, colaborador e empresários, explorado e exploradores, escravo e esclavagista?

O que estamos a ver no Alentejo é uma realidade que há muito se via, mas não se reconhecia. Tenho dificuldade em perceber o silencio do Partido Comunista, supostamente tão forte no Alentejo, perante a exploração feita a seres humanos, isto é, um partido comunista que fica em silêncio perante a exploração do homem pelo homem. Sendo estes acontecimentos longe das cidades, entendo a ausência do Bloco. E, perante as responsabilidades do Governo, enquanto militante do Partido Socialista, sinto-me envergonhado pelas medidas tomadas nos últimos anos. Esta é a hora de resolver estas situações de escravatura moderna.

Propriedade Privada

Não tenho uma visão dogmática do mundo, onde para além do valor maior da vida e da dignidade humana, pouco ou nada se poderá sobrepor a essas duas dimensões. Da situação agora mais transparente em torno da situação nas explorações agrícolas do Alentejo já sabemos que estamos na presença de milhares de pessoas a viver em condições muito más. Percebemos que a infeção COVID encontrou naquele contexto um terreno fértil para progredir. Conhecemos ainda a intenção do Governo de encontrar uma solução rápida para alojar estes seres humanos em condições dignas. E, aplaudo a capacidade do Governo em tomar medidas radicais. O Zmar deve dinheiro ao estado e por isso faz todo o sentido ocupar as casas, garantindo condições de vida a estas pessoas.

Mas, continuamos sem saber nada sobre o explorador. Quem são os homens esclavagistas que acumulam capital à custa da dignidade humana? Será que têm acesso a fundos governamentais ou europeus? Não lhes poderá ser imputada a fatura do Zmar?

E, com esse dinheiro pagar parte da divida do Zmar ao Estado?

Parece absurda esta proposta?
Claro, tal como me parece absurdo haver seres humanos alvo de escravatura em Portugal.

Vivemos, em muitos momentos da nossa história, episódios de “fugas” para o estrangeiro de inúmeros compatriotas. Imagino que as condições de trabalho em França, no século passado não deveriam ser as melhores, para citar apenas um exemplo.

Somos, enquanto povo, o resultado de séculos de “descobrimentos.”

No entanto, continuamos com um racismo generalizado que nos condiciona o desenvolvimento. A forma como procuramos fechar os olhos ao Esclavagismo Alentejano é também uma abordagem racista às condições laborais.

Diria, pois, que o COVID vem levantar velhas questões fazendo luz sobre novas formulações desses problemas.

Tenhamos a capacidade de os colocar em cima da mesa e de os discutir, olhos nos olhos.

Sem tabus.

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