Domingo, 14 Abril 2024

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AVC: É a doença que mais mata em Portugal

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O Gaia Semanário esteve à conversa com José M. Calheiros, que nos falou sobre o AVC de uma maneira genérica, e como esta doença se manifesta. Salientou-nos que é uma doença que mais mata em Portugal, e que a prevenção é muito importante, bem como estar atento aos sinais e a outras doenças, como é o caso do cancro, doença vascular cardíaca – enfarte do miocárdio, doença pulmonar obstrutiva crónica, diabetes e outras. A prevenção, segundo José Calheiros é fundamental.

Gaia Semanário – O que é um AVC?

José M. Calheiros  – Um AVC (acidente vascular cerebral) é uma emergência médica resultante da chegada insuficiente de sangue ao cérebro o que provoca a morte dos tecidos / células cerebrais.

Há dois tipos principais: O AVC isquémico – que resulta da obstrução / entupimento de uma artéria e O AVC hemorrágico – que resulta de uma hemorragia, ou seja, do rompimento de uma artéria.

Ambos os tipos de AVC provocam chegada insuficiente de sangue ao cérebro do que resulta que passe a funcionar deficientemente.

GS – Como surgiu e porque este dia do AVC?

José M. Calheiros – O Dia Nacional do Doente com Acidente Vascular Cerebral (AVC) é assinalado a 31 de março. Foi instituído, em Portugal, no ano de 2003, com o objetivo de sensibilizar a população para a realidade da doença em Portugal, enquanto doença prevenível e tratável, e a necessidade de melhoria das práticas clínicas nesta área.

Este dia é também assinalado mundialmente a 29 de outubro. O tema da sua campanha para os anos de 2020 e 2021 é idêntico, centrando-se no aumento da consciencialização para o reconhecimento dos sinais de um AVC e a necessidade de acesso atempado a tratamentos de qualidade. 

GS – Em Portugal em média quantas pessoas morrem com um AVC?

José M. Calheiros – O AVC é a principal causa de morte e incapacidade em Portugal. De acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2019, morreram 10 975 pessoas por AVC. Em 2018, este valor foi 11 235. No entanto, estas comparações são muito rudimentares e não processam adequadamente a informação indispensável para uma análise de base científica.

Em 2021, os dados preliminares do INE sugerem que 9,6% dos óbitos foram atribuídos à pandemia e por tal motivo iremos, seguramente, observar diminuições transitórias nas outras causas de morte, incluindo o AVC.

Relevantes são os dados de prestação de cuidados, isto é, de morbilidade.

De acordo com a Direção Geral de Saúde e tendo por base dados recolhidos juntos das unidades hospitalares, divulgados em novembro de 2021, para o ano de 2019, 25 105 doentes foram admitidos em hospitais públicos com o diagnóstico de AVC e destes cerca de 75% correspondiam ao tipo isquémico.

Isto significa que a dimensão da doença é muito superior à mortalidade e que, de acordo com a mesma fonte, só cerca de metade das vítimas foram tratados em unidades especializadas. Destes, no caso do AVC isquémico, a mesma DGS indica o número de tratamento disponibilizados têm vindo a aumentar progressivamente. Quando utilizados corretamente estes tratamentos podem proporcionar uma evolução favorável que poderá ser decisivo para uma boa ou completa recuperação. No entanto, destaque-se que uma elevada proporção de doentes não reúne as condições exigidas medicamente para lhe ser administrado o tratamento incluindo as dificuldades de acesso que vão determinar o tempo entre o início dos sintomas e a decisão de tratar.

Por tal motivo, é indispensável promover ações que melhorem o conhecimento da população para os sinais de alerta – os 3 F isto é, falta de Força num braço, desvio da Face (boca ao lado) e dificuldade na Fala.

Tempo é cérebro – isto é, quanto mais tempo passar mais “estragos” vão ocorrer e menor e mais difícil a recuperação.

Os doentes que não tiveram condições para receber os referidos tratamentos – AVC isquémicos sem indicação para tratamento e os AVC hemorrágicos, na sua grande maioria durante a fase aguda e após a mesma, vão necessitar de cuidados integrados de várias especialidades.

Estes doentes não podem ser considerados um “peso” para a sociedade e serem “empurrados” para as famílias as quais, frequentemente, não dispõem de recursos mínimos para cuidar com dignidade.

Os serviços de saúde têm obrigação de definir um plano de cuidados para o doente e de apoio à sua família, partilhando responsabilidades, sem culpabilizar ou intimidar a mesma, articulando-se com os serviços da comunidade – centro de saúde, segurança social e outras. A Portugal AVC – União de Sobreviventes, Familiares e Amigos organiza grupos de ajuda mútua em vários locais do país, visando apoiar sobreviventes e famílias. https://www.portugalavc.pt

GS – O estilo de vida pode alterar, ou reverter o risco de AVC?

José M. Calheiros – Como vamos ver em seguida, grande parte dos fatores que determinam a nossa saúde estão fora do sistema de saúde!

Uma elevada percentagem de AVC’s podem ser prevenidos. Alguns estudos indicam que essa percentagem poderá atingir 80%. Ora, sendo bem conhecidos os resultados catastróficos que podem ocorrer, tudo deve ser feito para a sua prevenção.

Investir na doença sem investir na prevenção é causar sofrimento desnecessário e não rentabilizar os recursos.

Os principais fatores de risco, alguns deles comuns a outras doenças: cancro, doença vascular cardíaca – enfarte do miocárdio, doença pulmonar obstrutiva crónica, diabetes, certas doenças dos oculares, podem ser contrariados mantendo uma vida saudável.

Como? Segue-se uma lista de fatores de risco modificáveis que pressupõe o desenvolvimento de políticas públicas de saúde em muitos setores da sociedade e, simultaneamente, ação individual e coletiva.

  • Reduza substancialmente o consumo de sal e controle a tensão arterial;
  • Deixe de fumar e não aceite que se fume em casa no carro e outros locais, incluindo esplanadas, habitações;
  • Não esqueça que fumar é fator de risco importante para se vir a ser diabético e um diabético que fuma está ainda em mais sério risco de vir a ter doença vascular grave.
  • Controle a glicemia (açúcar no sangue) e o colesterol.
  • Controle o peso, aumentando o consumo de frutas e vegetais, mantendo uma dieta equilibrada;
  • Caminhe rapidamente pelo menos 2-3 horas por semana; ajuda no bem-estar e na saúde mental, contribui para controlar o peso e a tensão arterial;
  • Peça ao seu médico que esteja atento às possíveis alterações do ritmo do coração e que o ajude a identificar alterações no ritmo das pulsações (pode ser fibrilação auricular – responsável por muitos AVCs inesperados e de deteção difícil);
  • Limite o consumo de álcool; não beba em excesso em certas ocasiões festivas e outras, pois o álcool contribui para a subida da tensão arterial e pode desencadear uma fibrilação auricular.

GS – A componente genética é fator de aumento de sofrer um AVC, ou é apenas o estilo de vida?

José M. Calheiros – Cerca de 90% dos AVCs podem ser explicados como tendo por base 10 fatores de risco modificáveis (ver acima). No entanto, o AVC é muito heterogéneo nas suas causas e manifestações. As pessoas com uma história de AVC na família partilham o mesmo ambiente e os riscos acrescidos atrás assinalados. Estes podem interagir com eventuais riscos genéticos os quais têm vindo a ser estudados em detalhe tentando melhorar o nosso conhecimento desta pequena proporção de casos da doença.

Por esta razão e porque está em causa a maioria dos AVCs, destacamos, novamente, a importância da prevenção e controlo dos fatores de risco modificáveis.

8 – Um doente de AVC tem mais probabilidades de contrair o Covid-19.

Num doente de AVC podemos identificar, frequentemente, que tem múltiplos fatores de risco os quais, anteriormente, incluímos na seção dos riscos modificáveis. Muitas vezes estes riscos agrupam-se. Falamos então de co-morbilidades (diabetes + obesidade + doença respiratória crónica e outras) que aumentam substancialmente o risco de doença grave por COVID-19.

Por outro lado, diversos estudos efetuados revelam que a ocorrência de um AVC isquémico em doentes com COVID-19, é dependente da presença de fatores de risco previamente existentes e já mencionados.

Por tais motivos a vacinação é recomendada sem exceção.

José M. Calheiros é Membro da Comissão Científica da Sociedade Portuguesa do AVC (SPAVC) e Presidente da Assembleia Geral da Portugal.AVC – União de sobreviventes, familiares e amigos. Médico; especialista em medicina interna e em saúde pública

Professor catedrático jubilado de medicina preventiva e epidemiologia da Universidade da Beira interior / Professor Catedrático convidado da Universidade Fernando Pessoa / jcalheiros@ufp.edu.pt

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