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Quinta-feira, Junho 17, 2021

Aquela comichão de quem pode morrer na praia

Gil Nunes

Jornalista

José Mourinho não diria melhor: em condições normais, o Sporting vai ser campeão. E em condições anormais, o Sporting também vai ser campeão. O problema é que, nesta altura do campeonato, entra em campo o fator ansiedade, que traz consigo uma espécie de possibilidade de conjuntura de superanormalidade. Afinal de contas – e falo de contas na aceção matemática do termo – o Sporting pode não ser campeão. É altamente improvável. Mas é matematicamente possível.

Mais do que a questão tática, a componente emocional é essencial para que o Sporting dobre o seu pequeno Bojador e alcance o outro lado do oceano em primeiro lugar. Os leões não deslumbram, mas apresentam um futebol suficientemente sólido do ponto de vista defensivo para fazerem jus à sua própria filosofia: o melhor ataque é mesmo a defesa. Defender bem para não dar hipóteses ao adversário de se agigantar. Para depois meter os três pontos no bolso.

Depois do empate no limite frente ao Belenenses, os leões parece que entraram numa espiral que se agudiza em jogos onde o seu favoritismo é evidente. Contra o Nacional, notou-se um certo nervosismo que tornou turvo um estilo perfeitamente assimilado e interpretado pelos seus jogadores. Porque o Sporting está bem. E está ainda melhor após o regresso de Nuno Santos, um elemento que acrescenta uma cadência maior em termos de jogo interior, que naturalmente dinamita o flanco direito e confere uma nova vivacidade ao determinante Pedro Porro.

Outro jogador determinante é Paulinho. É certo que não é um jogador exuberante nem possui um “killer instinct” capaz de assustar as defesas contrárias a cada intervenção. Não é. O problema é que o seu cardápio possui todos os pratos: é eficaz em 4x3x3, em 4x4x2, nos movimentos entrelinhas, na leitura da profundidade, na interpretação do limite do fora de jogo. Na ligação com os médios. Na interpretação do processo defensivo, e veja-se o papel fundamental que desempenhou em Braga após a expulsão de Gonçalo Inácio. E sobre os avançados podemos escolher cada um dos caminhos da bifurcação: ou optamos pela versão “Jardelizada” da coisa e definimos o avançada como alguém com uma característica exacerbada e um monte de outras características razoáveis; ou então temos Paulinho – um somatório de boas qualidades que potenciam mais a equipa e menos o elemento em si. E é por essa razão que Rúben Amorim não se cansa de o defender. Paulinho é um elemento-chave do Sporting.

Na passada jornada, destaque também para o alto rendimento de Jovane Cabral. Trata-se de um elemento que cresceu bastante não tanto na sua ligação ao jogo mas antes na interpretação do próprio jogo. Jovane continua a ser muito interventivo mas a diferença é que, agora, cada uma suas ações é mais exponenciada. As suas características explosivas fazem dele um elemento muito útil no decurso do próprio jogo, funcionando como uma espécie de desbloqueador. No entanto, para além da sua componente ofensiva, Jovane tornou-se mais ladino na interpretação dos espaços, forcing do amarelo ao adversário, conquista da falta em zonas que realmente interessam. Um manancial de pormenores que, ao fim ao cabo, capitalizam os interesses da equipa rumo ao título.

Destaque também para a tremenda evolução do Sporting em termos de aproveitamento de bolas paradas. E do seu seguimento. À boa moda do F.C.Porto, a situação de bola parada tem uma continuidade que se incorpora no próprio seguimento da bola parada. Tudo é estudado. E foi assim que Jovane Cabral recuperou a bola e serviu Feddal. Que não saiu da sua posição. Pormenores que valem a diferença. Pormenores que valem títulos!

Destaque ainda para o regresso de Luís Maximiano à baliza do Sporting. Com Adán em grande plano, o jovem guarda-redes tem tido uma época mais tímida, mas ainda assim de pleno aproveitamento sempre que chamado a intervir. Destaque para o seu bom posicionamento e leitura de profundidade, fatores do jogo que colocaram a sua defesa mais à frente e deram uma maior estabilidade à equipa.

E não deixa de ser curioso que o guarda-redes jovem e talentoso tem sido apanágio dos ditos três grandes. Luís Maximiano, Diogo Costa e Svilar são elementos repletos de potencial e com todas as condições para serem titulares indiscutíveis a curto ou médio-prazo. Haja condições para tal! E paciência, porque Rui Patrício e Pavia não se fizeram num só dia!

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