Sábado, 18 Maio 2024

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“A corrupção é um problema de todos nós”

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A All4Integrity levou às escolas a anticorrupção, tema bem quente que aguça o bico de qualquer meio de comunicação social. A iniciativa tem por base apresentar a anticorrupção nas escolas de uma perspetiva de formação e não da corrupção em si. O tema foi recebido com entusiasmo nas escolas em que teve lugar. Contactamos professores, encarregados de educação, alunos e funcionários, para saber o que sabem e pensam sobre o tema da corrupção nas escolas e combater esse flagelo que assola a nossa sociedade, de uma maneira educativa a todos os agentes da sociedade.

“O grande objetivo é tendo em conta os índices de perceção sobre a anticorrupção nas escolas, e o contexto do nosso país, fazer chegar esta realidade aos nossos alunos”.

O tema abordado não se insere numa perspetiva mediática, “que é isso que não queremos”, o mediatismo de alguns casos particulares, “não é isso que nos interessa abordar com os nossos alunos, aquilo que queremos abordar com os alunos mais velhos é a tomada de consciência do problema, o que isto significa na prática, o que é que istoimplica no desenvolvimento do nosso país, para depois trabalhar noutras questões que estão inerentes à corrupção, que que começam nas práticas diárias. A transparência ou falta dela não está só na corrupção, é acima de tudo sensibilizar os nossos alunos para esta consciencialização de práticas de transparência de integridade, que são fundamentais não só na cena política, e na nossa relação com as instituições.”

Ângela Malheiro diz que o objetivo é também aproximar cada vez mais os jovens das instituições, saber como elas funcionam para poderem ter uma ação mais ativas, mais interventiva. 

O grande objetivo é a tomada de consciência sobre os fatos, sobre a realidade, por outro lado a necessidade que a sociedade portuguesa tem de ser mais interventiva e atenta, esclarecida por forma a que haja progressivamente alteração de comportamentos, porque esse é o grande objetivo.

Porque tudo começa com um favor e depois acaba num crime. Partindo do contexto português e partindo da preocupação da sociedade e que nos tem invadido, ultimamente com casos maios ou menos mediáticos, nós não podemos ficar imóveis.

A All4integrity nasce de um movimento que foi iniciado por um português que vive nos Estados Unidos, em Nova Iorque, André Correia de Almeida, que é professor Universitário na Columbia University, e que no dia 5 de outubro de 2020, iniciou o movimento: «Libertem o meu país da corrupção». E a partir daí começou uma série de iniciativas ao nível das redes sociais e que culminaram o ano passado com a formalização, em setembro de 2021 da Associação da All4integrity, que conta já com várias iniciativas. O prémio Tágides, a segunda edição vai ser lançada este mês, o programa da rede escolas anticorrupção.

Também com programas para a academia, ao nível da inteligência artificial, a Tech4integrity, são diferentes áreas para diferentes intervenções que nascem a partir desta mobilização individual e que têm vindo a alargar outros colaboradores e que têm sido bastantes. 

A anticorrupção está numa perspetiva de formação, nas escolas, por segundo Ângela Malheiro ser “um tema que não está contemplado no plano de formação para a cidadania, e precisamente é precursor a esse nível”. E remata: ”A corrupção não é um problema dos outros, é um problema de todos nós.”

Professor da Escola Secundário de Carvalhos diz-nos como foi abraçado este projeto

Estivemos também à conversa com o professor da Escola Secundária de Carvalhos, José Pedrosa, que nos adiantou sobre como foi abraçado este projeto da All4Integrity e como decorreu:

José Pedrosa

“A ideia surgiu quando me apercebi que a associação all4integrity.org tinha um programa denominado RedEscolas anticorrupção, cujo objetivo era o de elaborar Recursos Educativos Digitais (Red) nas escolas como forma de, entre os alunos, criar uma cultura de integridade e transparência contra a corrupção. Decidimos assim, em conjunto com a professora de Cidadania, Sofia Pinho, e a Diretora de Turma, Rosa Silva, em articulação com o Conselho de Turma, inscrever os alunos neste programa. Entretanto já realizamos, em algumas aulas, pequenos debates. No primeiro período organizamos uma conferência com António Henrique Cruz, presidente da comissão executivo da Norgarante, sobre o fenómeno da Corrupção e na semana do 25 de abril a 1 de maio organizamos a semana da liberdade com uma atividade musical e literária”. Quando questionado sobre se sabia de algum tipo de corrupção nas escolas, a resposta foi pronta e incisiva: “Como qualquer cidadão, se tivesse conhecimento dessa situação teria comunicado às autoridades competentes. É um dever.”

No que refere ao combate da corrupção disse ainda que “a corrupção é um fenómeno que é transversal a toda a sociedade e que começa com um pequeno favor, a famosa cunha, e termina com a corrupção ativa em cargos de importância vital em instituições públicas e privadas. É um fenómeno opaco, por isso de difícil perceção, que muitas vezes surge associada a fenómenos que, apesar de legais, deixam muitas dúvidas morais e éticas como a questão das portas giratórias entre funções públicas e depois privadas.”

Sofia Nilza

A iniciativa, segundo José Pedrosa, foi produtiva e os alunos interagiram muito bem com o tema. “É obvio que a noção e a visão dos alunos, apesar da tenra idade (alunos do 9º ano) se alterou e passaram a ter uma visão e uma perceção para o fenómeno e a estar mais atentos ao órgão da comunicação social e a questionar-me quando surge algum caso nas notícias”. O programa não é apenas vocacionado para as escolas, mas também para a sociedade civil como a questão do prémio Tágides. 

O programa na comunidade escolar

Catarina Cirne é funcionária da Escola Secundária de Carvalhos e sobre o tema respondeu-nos ser “a primeira vez que ouço falar neste movimento e fui ao Facebook inteirar-me e gostei da ideia.” Afirma também que não tem conhecimento de algum tipo de corrupção nas escolas, embora às vezes se fale nisso sobretudo por causa das matrículas, diz a funcionária.

Matilde Pedrosa

Já para Matilde Pedrosa Guerra, aluna do 9º ano, a “corrupçãoé o efeito ou ato de corromper alguém ou algo, com a finalidade de obter vantagens em relação aos outros por meios considerados ilegais ou ilícitos. A ação de corromper pode ser entendida também como o resultado de subornar, dando dinheiro ou presentes para alguém em troca de benefícios especiais de interesse próprio.”

Matilde refere ainda que assistiu a “alguns tipos de corrupção, não na escola, mas quando iniciamos o projeto de corrupção e anticorrupção debatemos sobre o mesmo.”

Achou esta uma “ótima iniciativa, porque temos que dar entender que a corrupção não é justa e que devemos ser o mais leal possível porque ao cometer o ato de corrupção estamos a infringir uma lei e que podíamos evitar ao sermos justos.”

Susana Oliveira

Susana Oliveira, funcionária da Escola Secundária de Carvalhos, confidenciou-nos que esta ideia surgiu numa comunidade, “que agarrarou um pequeno grande desafio de lutar contra a corrupção nas escolas, através de boas práticas éticas, muitas vezes desenvolvidas nas aulas de Cidadania”. 

“Para mim a anticorrupção é: combater o suborno e os benefícios. É usar os favores em benefício próprio. Devemos ser cidadãos íntegros, para passar valores éticos aos nossos jovens.”

Considerou ser “um trabalho árduo, mas que está a surtir algum efeito.” 

André Castro

André Castro é estudante do 9º ano e falou-nos sobre a corrupção como sendo “uma lavagem de dinheiro, desvio de dinheiro e uso de poder para conseguir ter vantagens”.

A anticorrupção é um movimento que pretende mostrar que “mesmo que não pareça, nos países em desenvolvimento existe menos corrupção que nos países desenvolvidos.”

Diz ser a favor desta iniciativa, pois “promove um maior conhecimento geral sobre a corrupção, por isso eu promovo totalmente esta iniciativa e acho que devia ser espalhada por todas as escolas do país para que todos os alunos tivessem conhecimento que a corrupção só prejudica o nosso país e o seu desenvolvimento. Pagar para ter notas e diplomas não é solução pois é necessário estudar e aplicar-se para conseguir ultrapassar metas, não é pagando que vamos conseguir tudo o que queremos.”

Pais satisfeitos com a iniciativa

Ana Almeida Castro, encarregada de educação, diz-nos que “é nos primeiros anos de aprendizagem que se criam valores para a vida, daí ser muito importante falar-se deste tema nas escolas. Fico muito contente que o meu filho seja um desses alunos que está a beneficiar desta iniciativa com o empenho dos seus professores e do Agrupamento de Escolas de Carvalhos.”

Ana Almeida Castro

“Não tenho nenhum conhecimento pessoal, mas em sociedade fala-se muito de diplomas comprados e notas inflacionadas em troca de favores e até mesmo de valores monetários. É de conhecimento geral a inspeção a alguns colégios e a inspeção de diplomas universitários de alguns políticos do nosso país, o mais conhecido foi o de José Sócrates”.

Completa depois que “são vários os efeitos positivos desta iniciativa no meu filho e nos seus colegas, desde um maior conhecimento sobre o tema, o unirem-se para trabalhar em conjunto, o procurar saber mais e acima de tudo passar a mensagem. Trabalharam ao longo do ano letivo para que todos os alunos e a comunidade escolar pudessem tal como eles aprofundar e debater este tema.”

Ivone Pedrosa, encarregada de Educação, pensa que a iniciativa “tenha surgido com o objetivo de promover um maior envolvimento de toda a comunidade escolar para os temas relacionados com a corrupção.”

Ivone Pedrosa

Sobre a questão da existência de corrupção nas escolas no país, mas preferiu não exemplificar dizendo apenas que “para mim a anticorrupção é a luta contra ações ilegais que podem estar ligadas com subornos ou interesses e favores em benefícios próprios. Para combater este tipo de ações devemos acima de tudo promover a igualdade de tratamento entre todos, independentemente do estatuto de cada um”.

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