Sexta-feira, 8 Dezembro 2023

#informaçãoSEMfiltro!

A combinação do cofre

-

O Benfica parece bem melhor do aquilo que é mas há algo que é indiscutível: não há fantasias. Há, isso sim, uma realidade indiscutível de quem é líder da liga portuguesa com todo o mérito e de quem aproveitou os ventos na devida conformidade para se colocar na dianteira e, em condições normais, dela não mais sair: mesmo com a derrota frente ao FC Porto, o Benfica devera será campeão. E Schmidt é o grande arquiteto do previsível título. 

E o que correu bem? Planeamento, disciplina e, sobretudo, um minucioso trabalho de sapa que permitiu que as ideias do treinador cosessem com os quadros do clube e se contratasse de forma hábil e precisa. Dá muito jeito, também, ter um Presidente que foi jogador da bola e que, como tal, aumenta significativamente a eficácia das contratações, sem que haja dinheiro mal gasto. Na prática, Schmidt chegou ao Benfica e construiu o melhor onze que podia ter construído, assente em pilares de robustez assinalável: Florentino na recuperação e Enzo a complementá-lo em conformidade, ligando setores e chegando facilmente a zonas de tiro ou, mudando a órbita das coisas, envolvido na primeira fase de construção com eficiência; Rafa em situação de desequilíbrio quase permanente à custa da sua velocidade e capacidade de transição ofensiva; João Mário puxado para zonas de definição e finalização, com Grimaldo a ganhar asas no corredor esquerdo; e um felino ataque à primeira bola personificado em Gonçalo Ramos e que se traduziu em golos atrás de golos. E, nestas coisas, há sempre espaço para as surpresas: com uma pré-temporada em que esteve tão bem ou melhor que os restantes centrais, António Silva afirmou-se de pedra e cal no onze e, para além da robustez defensiva, impressionou pela forma precisa como constrói até em passe longo. 

Sem grande banco – só no inverno (sobretudo com Gonçalo Guedes) as novas soluções trouxeram algo de diferente– o Benfica foi fazendo o valer o tempo para conquistar três pontos atrás de três pontos. Sem lesões nem grandes castigos, o onze cristalizou-se de forma quase imutável, se bem que as coisas nem sempre tivessem corrido às mil maravilhas: frente ao Caldas, com pedras-base do onze a clamarem por repouso, nem aí Schmidt arriscou a rotação e o caldo por pouco que quase entornou; diante do Braga, dias depois, uma linha arsenalista de três médios tornou o Benfica em presa fácil. Mas tais cenários não abalaram um Benfica concludente até num grupo complicado da Liga dos Campeões. O antídoto foi eficaz: entradas a todo o gás frente a equipas de menor dimensão: ou então Aursnes no onze e Neres no banco para equilibrar a equipa no plano defensivo (transição), não fosse a receita do Braga proliferar e mais gente haver a usá-la. Nem que fosse preciso, numa última cartada, deixar o fator talento rolar e resolver as coisas (Boavista em casa, por exemplo) através do tempo e da “erosão” provocada na estrutura defensiva dos adversários. 

Se o Braga abanou o contexto, o FC Porto acertou em cheio na combinação do cofre e trouxe à luz do dia algumas fragilidades que foram devidamente exploradas pelo Inter poucos dias depois. A saber: a pouca apetência do Benfica para ligar setores – defesa e meio-campo, sobretudo após a saída de Enzo, que disfarçava tal problema como se tal não existisse; fragilidade na conquista de segundas bolas, que tornam a equipa débil quando o fator físico impera; dificuldades para sair a jogar quando os corredores (sobretudo Grimaldo e que grande jogo de Pepê) estão bloqueados; e um guarda-redes que é bom (Odysseas) mas que não é propriamente uma solução em termos de jogo de pés, sobretudo numa época em que os guarda-redes são cada vez mais líberos assumidos – que diferença para Diogo Costa!

É claro que no Benfica se lança o debate e a constatação óbvia: Chiquinho não é o Enzo e o Benfica ficou claramente a perder. A questão é que o “rapaz” faz o que pode e o que lhe compete e, não fosse a sua abnegação e disciplina tática, e as coisas podiam até ser bem piores. O que não se pode é confundir a competência de Chiquinho com a missão utópica de colocá-lo como substituto imediato de Enzo. Porque tal terá de ser prioridade da próxima temporada, dentro do tal quadro de planeamento em que Schmidt mostrou perícia e, valha a verdade, também aproveitou (sem culpa nenhuma, diga-se) a instabilidade dos quadros dos seus rivais mais próximos, que viram voar Vitinha e Matheus Nunes para outras paragens. 

Mas há um ponto fraco ainda mais assumido: o Benfica perdeu de forma categórica frente ao FC Porto e às portas do embate da Liga dos Campeões. E a questão é que Schmidt não fez nada para alterar o estado de situação e provocar surpresa num adversário que, valha a verdade, observou atentamente o jogo dos dragões e interpretou-o de forma perfeita. Ou seja, por duas vezes o fator “treinador” veio à tona e em ambas Schmidt vacilou: em primeiro lugar porque nunca conseguiu contrariar a estratégia bem montada por Sérgio Conceição; e, em segundo lugar, porque não arranjou um plano “B” (por mais frágil que fosse) que surpreendesse a equipa do Inter. E, muito embora a reviravolta na eliminatória seja possível, o melhor mesmo é aguentar as botas gastas como elas estão e não vacilar no sprint final da liga. Eis o Benfica. 

*publicado na edição em papel de 12 de abril de 2023

partilhar este artigo