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Vila Nova de Gaia
Terça-feira, Setembro 27, 2022

Uma águia que faz das tripas coração

Não há jogos que salvem temporadas, até porque uma boa temporada nunca se mede pelo jogo x ou y. Ou, melhor dizendo, quando um jogo se torna vital no vasto intervalo da temporada, tal significa que os objetivos não vão ser alcançados. No caso do Benfica, praticamente arredado do título e definitivamente afastados da Taça da Liga e da Taça de Portugal, a qualificação para os quartos de final da Liga dos Campeões seria uma boa tónica em termos de mensagem. Afinal de contas, no meio de toda a turbulência, o Benfica é suficientemente grande para chegar ao restrito lote das oito melhores equipas da Europa. Essa é a mensagem que poderá ficar e prevalecer. 

É lógico que o Benfica não vai vencer a Liga dos Campeões e, como tal, há agora um objetivo interno que desponta: a qualificação para a Liga dos Campeões da próxima temporada. No fundo, quase como um regresso a um passado não muito longínquo. Na primeira temporada de Jorge Jesus, quando se planeou aquela que seria uma equipa avassaladora – a da presente temporada. Bola. Zero. 

Voltando aos dias de hoje, não se pode dizer que o Benfica esteja propriamente em crise. Aliás, as boas notícias provieram do jogo frente ao Boavista e de dois golos de tremenda qualidade coletiva. Veja-se o primeiro: incursão do lateral, astuto ataque ao espaço de Darwin e Rafa e bola ao jeito de Taarabt, que não perdoou. Eis o cerne da questão. Eis o jogador recuperado por Bruno Lage e que Nelson Veríssimo também não quer deixar fugir. E compreende-se: em progressão, com bola e muita técnica nos pés, é o elemento do Benfica mais habilitado a ligar as linhas e a tornar a equipa, por um lado,mais equilibrada e, por outro, mais apta em termos de ataque de posse, algo que se toma como o principal eixo de debilidade deixado por Jorge Jesus. Mas Taarabt não é o jogador perfeito: em termos de recuperação defensiva deixa a desejar, e tal foi deixado a cru na segunda parte do jogo do Bessa, quando a frescura física não era a necessária. E não foi só Taarabt. As águias têm problemas em termos de reação à perda, ainda pacientes do estilo de jogo anterior. 

De facto, por muito que Veríssimo esteja a tentar operar uma metamorfose tática, a equipa ainda se sente confortável no dito futebol de terramoto, personificado por elementos capazes de dar sapatadas no jogo, como são os casos de Darwin ou de Rafa Silva. Por isso, na segunda parte e com as linhas mais baixas, a ideia passou por regressar a equipa um pouco aos últimos tempos de Jorge Jesus e, também, acautelar os ânimos no seguimento do alvoroço sentido na primeira parte. Se, no primeiro golo dos holandeses, o Benfica não soube sair da pressão alta (marcação individual precisa e ausência de linhas de passe próximas), no segundo golo Haller aproveitou o mau posicionamento de Otamendi e a falta de pressão de Gilberto para faturar. Dois erros graves. 

E são erros que sobressaem dentro de um Benfica onde o talento sobressai, mas nem sempre se contrabalança com o equilíbrio necessário. Falta um “Uribe” capaz de bloquear as linhas de passe adversárias; falta um “upgrade” de André Almeida, ou seja, um jogador com as capacidades defensivas do português mas mais hábil no capítulo ofensivo. E faltam mais soluções no meio-campo. Ou não.

Se analisarmos todos os jogos da sua carreira – formação e sénior – chegamos à conclusão de que Gonçalo Ramos até foi mais vezes médio do que avançado. A sua polivalência tem sido útil aos encarnados: como segundo avançado ou como terceiro médio, assegura que o terreno que pisa deixe de ser uma “terra de ninguém”, possibilitando um maior rendimento dos seus parceiros de ataque. Isto sem esquecer a sua capacidade para jogar em espaço reduzido e para finalizar de forma pronta e astuta. No meio de um Benfica 2021/2022 que está a ser tudo menos pacífico, cumpre destacar o elemento que mais evoluiu (mérito também de Jorge Jesus) e que se vai cotando como um dos elementos mais fiáveis do Benfica da atualidade. 

Feitas as contas, e numa altura em que os golos fora deixaram de valer o dobro, o empate na Luz deixa tudo em aberto. Não que uma equipa do Benfica se possa orgulhar de empatar em casa frente ao Ajax mas, sobretudo, por uma perspetiva de crescimento que poderá desencadear um Benfica mais forte na segunda mão, devidamente apto para seguir em frente. No fundo, convinha ao Benfica não deixar afundar a eliminatória e continuar o trabalho formiguinha de Nelson Veríssimo. E olhar novamente para os golos do Bessa: golos de equipa de qualidade, de bom técnico, golos que não surgiram da espuma do jogo. Há motivos para acreditar.

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