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Vila Nova de Gaia
Terça-feira, Setembro 27, 2022

Quatro golaços e um funeral

O clássico da ironia. Foram quatro golos de elevada qualidade e um cenário de pancadaria que não se recomenda a ninguém. O problema destas coisas é que o mal acaba – na maior parte das vezes – por prevalecer em relação ao bem: e o cenário de caos sobressai em relação a duas equipas de top, devidamente organizadas e com capacidade para dar cartas a nível internacional. Mas não vale a pena chorar sobre leite derramado. Houve pancadaria e asneirada generalizada. E da grossa. Houve um reprovável cartão de visita do futebol português e uma má imagem do jogador, do treinador e do dirigente. Que leva tudo e todos por arrasto. Porque falar de futebol português é falar de pancadaria e, meses volvidos, já ninguém se lembra dos clubes em questão. Se foi o FC Porto ou o Sporting. Má publicidade irreversível. 

Foram 43 minutos de jogo corrido, mas tal não deve sinónimo de bom ou de mau jogo. Na realidade, o número de minutos não é diretamente proporcional à qualidade do espetáculo. Pode argumentar-se que, caso a trica não estivesse devidamente instalada, poderíamos ter tido um espetáculo melhor. Por aí sim. Seja como for, basta colocar os olhos naquilo que o jogo teve de melhor: os golos. Quatro golaços que não foram conseguidos nem aos repelões nem às custas do fator sorte. Quatro golaços que resultaram de pleno envolvimento ofensivo e do mérito por parte de quem os apontou e de quem os construiu. E que resultaram de um jogo que, apesar de todos os seus problemas, esteve num patamar tático superior. Não há dúvidas: neste momento, FC Porto e Sporting estão um pouco acima de todas as outras equipas em Portugal. Indiscutível.

A jogar em casa, os dragões voltaram a mostrar muitos atributos em termos de jogo interior e, também, algumas dificuldades em jogar à largura e em profundidade, sendo que este último ponto está relacionado com a saída de Luis Diaz. Mas a ideia foi bem conseguida: obrigar o Sporting a baixar as suas linhas e a limitar a sua construção a partir da retaguarda. A questão é que o Sporting está habituado a tal cenário e, como tal, possui o antídoto necessário. Que é apresentado em toda a largura do campo. E assentes em transições ofensivas precisas e felinas, de um nível extremamente elevado e que colocam qualquer opositor em dificuldade. Na realidade, por muito elementar que seja adivinhar a equipa do Sporting ou esquematizá-la num mero guardanapo, as suas nuances divergem de jogo para o jogo tornando os leões “previsivelmente imprevisíveis”.

Com Taremi no onze inicial com o intuito de travar a construção leonina pelo lado esquerdo – bem como assegurar alguma profundidade e complementaridade com Evanilson – a estratégia dos dragões não foi mal pensada. Nem mal executada. Acontece que os lances que originaram os golos leoninos foram de qualidade superior: desde as variações de flanco de Ricardo Esgaio (hábil a jogar com ambos os pés) aos movimentos imprevisíveis de Paulinho passando pela qualidade técnica superior de Sarabia, os golos do Sporting pareceram sacado do mais exímio executante de “playstation”. 

É lógico que a expulsão de Coates condicionou. Sem o patrão da sua linha defensiva, o Sporting refez-se num 5x3x1 com um bloco ainda mais baixo e priorizado na estancagem do poderio interior dos dragões. Num pensamento tático correto: o Sporting até esteve mais perto de vencer o jogo que o FC Porto. 

Mas a resposta dos dragões foi efetiva. Muitas combinações na zona interior com disponibilidade de linha de tiro plenamente aproveitada por Fábio Vieira. Jogador que cada vez mais faz a diferença. Seja na pressão que executa sem bola (melhorou imenso), seja na leitura e perceção do jogo em prol da equipa. Como aconteceu no segundo golo: preenchimento do espaço vazio na zona exterior (algo de que o FC Porto carecia) e cruzamento milimétrico para a zona de finalização. Onde um elemento que percebe o jogo como nenhum outro – Taremi – apareceu a fazer toda a diferença.

Numa análise fria, e muito embora o desiderato de qualquer equipa grande seja sempre o de obter a vitória, o resultado favorece mais o FC Porto do que o Sporting. A prioridade passa por olhar e analisar o calendário e entender que o resultado obtido permite uma navegação em mar tranquilo. Em condições normais o FC Porto tem tudo para conquistar o título. Já no Sporting o panorama também se manterá inalterável: em primeiro ou em segundo lugar, não há dúvidas de que os leões deram um salto qualitativo tremendo às mãos de Rúben Amorim. Mesmo na Liga dos Campeões onde foram derrotados: convém agora isolar o acontecimento e destacar a invariável trajetória de crescimento da equipa. O Sporting está forte e não é coisa de ocasião. Veio mesmo para ficar!

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