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Salvador Santos

Gestor Cultural

1. Albuquerque Mendes e Paulo Neves são os artistas homenageados na IV edição da Bienal Internacional de Gaia, que arranca no dia 17 de abril e estende-se até 10 de julho, tendo por “palco” principal as instalações da antiga Companhia de Fiação de Crestuma, em Lever. Para os menos familiarizados com o mundo das artes plásticas, sublinhamos que tanto Albuquerque Mendes como Paulo Neves ocupam um lugar histórico e singular nas artes portuguesas, o primeiro nomeadamente pelo valor performático das suas obras pictóricas e o segundo pela originalidade e inovação dos seus trabalhos escultóricos, pelo que não se pode deixar de saudar e aplaudir esta distinção, que só honra quem a decidiu e privilegia um público que costuma acorrer em grande número às exposições e outras manifestações de um evento que se tem imposto desde a primeira hora como… imperdível.

2. A Bienal Internacional de Gaia, considerada um dos mais importantes acontecimentos culturais do concelho, da região e do país, afirmou-se desde a sua primeira edição, em 2015, graças à excelência da programação, das cuidadas curadorias e do talento dos artistas expostos, consolidando nas edições seguintes a sua importância no contexto das manifestações culturais em Portugal, ao assumir-se também como um lugar de reflexão sobre a sociedade e os problemas atuais. E esse figurino mantém-se em 2021, ao desafiar pintores, ilustradores, escultores e outros artistas plásticos, a refletir sobre a crise sanitária, social e económica provocada pelo Covid-19; reflexão expressa numa enorme diversidade de obras, de estilos e formas distintas, que depois de uma prévia seleção feita por um júri especializado serão apreciadas pelo público da Bienal, um “evento de causas” com grandes preocupações na criação de novos públicos e na formação e divulgação de jovens e menos jovens artistas.

3. A criação de novos públicos entre a comunidade local deve ser, quanto a nós, o maior desafio da Bienal Internacional de Gaia, que só pode ser bem-sucedido se alargar os seus espaços expositivos a todo território gaiense, caso contrário somos levados a antever que a Bienal venha a confrontar-se a breve trecho com uma crise de crescimento que deve ser acautelada desde já, com medidas preventivas de apoio a nível logístico e financeiro. A nível financeiro, não ignorando que o apoio concedido pela Câmara Municipal de Gaia se situa num plano nunca atingido no passado, no concelho, no que às artes plásticas diz respeito, não podemos deixar de sublinhar que este está ainda muito longe dos apoios municipais concedidos a eventos congéneres realizados no nosso país, pelo que se justificaria um aumento que acompanhe o nível de crescimento que a Bienal vem atingindo desde a sua primeira edição. No plano dos apoios financeiros, a organização não pode, porém, descurar a oportunidade da apresentação de candidaturas a outros programas de apoio enquadráveis, tanto de âmbito nacional como europeu (no plano nacional, a Direção Geral das Artes, depois ter considerado o evento não-ilegível em 2019, emendou agora a mão; mas existem outras instituições com programas de apoios às artes, como a Fundação Gulbenkian; e no plano europeu há vários de âmbito comunitário!). Já quanto à logística, tememos que a escassez de espaços na cidade e a deficiente rede de transportes públicos concelhia venha a condicionar o número de visitantes da Bienal, não sendo, por isso, despicienda a busca de mais alternativas no interior do concelho, nomeadamente através de parcerias concertadas com as juntas de freguesia. A criação e formação de novos públicos para as artes plásticas passa também por uma maior descentralização da Bienal… cá dentro, no território gaiense!

4. Eis que, enquanto saudamos o regresso da Bienal de Gaia, somos inesperadamente surpreendidos com a suposta intenção da APDL (Administração dos Portos do Douro, Leixões e Viana do Castelo) de acabar com o Estaleiro de Barcos Rabelos existente junto ao Cais de Gaia, que importa preservar e requalificar pelo inestimável valor histórico, cultural e identitário que representa. Esta é a segunda vez que alguém se lembra de tamanho disparate, sendo que da primeira várias personalidades do concelho ligadas à cultura e ao turismo uniram-se num enérgico e decisivo coro de protestos contra aquela loucura. Nessa altura, para além de se reclamar contra o impedimento de ali se continuar a construir e a recuperar barcos rabelos, tipo de embarcação cuja história de vida remonta a tempos anteriores à fundação da nacionalidade, estando indelevelmente associado à evolução dos processos de produção e de comercialização do Vinho do Porto, sobretudo após 1792, quando passou a ter a sua identidade definida pelas Leis da pombalina “Companhia”, reivindicou-se um plano estratégico que desse maior dignidade ao espaço e lhe conferisse outras valências, através da edificação de uma pequena infraestrutura de caráter museológico onde os turistas (e a população local) pudessem saber tudo sobre os barcos rabelos e obter informações sobre a enorme diversidade de embarcações que navegaram nas águas do Douro ao longo dos tempos, através de bibliografia, maquetas e outros suportes, para além de terem acesso a documentação e informação sobre a importância do Douro nos séculos XV e XVI, designadamente no que respeita aos Descobrimentos. Com os atuais autarcas de Gaia, e apesar do anúncio da APDL, acreditamos que a manutenção do Estaleiro nunca estará em causa. Mas será que a criação de um núcleo museológico será uma realidade a breve prazo? Nós queremos acreditar que sim, embora não se vislumbrem até hoje sinais nesse sentido!

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