O todo que é maior que a soma desnorteada...

O todo que é maior que a soma desnorteada das milionárias partes

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Gil Nunes

Jornalista

A qualificação do F.C.Porto para os quartos-de-final da Liga dos Campeões dava um excelente romance, com a moral da história a pender para o lado do herói. Porque o dito “herói”, mesmo mais fraco, jogou sempre todo compacto e superou de forma gloriosa um adversário particularmente dotado do ponto de vista individual mas com tremendas falhas em termos de conjunto. De facto, Cristiano Ronaldo merecia equipa melhor. Bem melhor.

Depois de um jogo da primeira mão em que só alguma ineficácia da linha avançada impediu um resultado avolumado, os dragões partiram para a segunda mão com a perfeita consciência de que, em condições normais, tinham boas hipóteses de passar. É lógico que a narrativa de que os orçamentos não ganham jogos é maviosa mas a sua interiorização é bem mais complicada. Sobretudo quando o dito adversário de orçamento grotesco começa a agigantar-se. Foi o que aconteceu na segunda parte. Mas, na primeira parte, o Porto foi claramente melhor. Como foi melhor ao longo das duas mãos.

Em Turim, os dragões apresentaram uma linha defensiva muito densa – por vezes mesmo em 6x3x1 – com o objetivo de fechar os espaços centrais e condicionar o jogo interior dos italianos e, por conseguinte, também as suas carreiras de tiro e zonas de desequilíbrio individual. Assim sendo, os transalpinos tiveram mesmo de puxar o jogo para os corredores, onde os laterais desempenhavam papel fundamental, sobretudo Cuadrado com as suas incursões rápidas ou então através de cruzamentos recuados com o intuito de se aproveitar o espaço definido nas costas dos centrais.

Nunca entrando em pânico – e sempre mentalizado de que um golo da Juventude seria uma normalidade – os dragões exerceram especial pressão no seu flanco esquerdo, com Otávio a cair nessa zona e a condicionar alguma da ação do decisivo Cuadrado. Bola recuperada, a equipa aproveitava a má transição defensiva da Juventus para fazer uma rápida variação de flanco e causar desequilíbrio iminente. A grande penalidade sobre Taremi foi consequência dessa mesma ação de jogo e, valha a verdade, colocou os dragões em posição cómoda na eliminatória mas á mercê de uma reação agressiva por parte do adversário.

Na segunda parte a Juventus fez subir as suas linhas, colocando Chiesa a explorar o espaço deixado vago por entre o lateral e o central portista. O jogador italiano desequilibrou e aproveitou o embalo da sua equipa que, diga-se, beneficiou do facto dos dois golos terem sido repentinos. Ciente disso mesmo, os médios da equipa portista tentaram subir no terreno e condicionar as ações da linha defensiva adversária. A expulsão de Taremi não ajudou e o F.C.Porto passou por alguns momentos de aflição que foram bem estancados através de substituições certeiras. À velocidade e ao acerto de Sarr juntou-se a clarividência de Grujic, elemento que garantiu uma maior tranquilidade na circulação de bola e se acrescentou como um bom apoio à linha defensiva, redefinindo a linha de seis homens que tantas vezes causou desnorte aos italianos. Também Luis Diaz esteve a um nível positivo, trabalhando imenso em termos de cobertura e dinamização do jogo ofensivo através da sua velocidade e controlo de bola. De facto, a situação não era fácil e o F.C.Porto reagiu de forma extremamente positiva: por muito que a inferioridade numérica fosse um “handicap”, os dragões nunca deixaram de estar consolidados e devidamente harmoniosos. Mesmo Toni Martinez, com importantes ações defensivas, mostrou um bom rendimento durante o tempo em que esteve em campo.

No global, destaques individuais para as exibições de Marchesin e Pepe. O guarda-redes portista, muito hábil a jogar com os pés, manteve a sua defesa sempre em zona adiantada e correspondeu com grandes intervenções sempre que foi chamado. Desequilibrou a rodos e manteve sempre a equipa à tona, não acusando a pressão natural de um jogo de tamanha envergadura. Já a capacidade física e o rendimento de Pepe bloquearam de sobremaneira as ações da Juventus, sobretudo a capacidade de criar desequilíbrio em zona central. Pepe conhece bem Cristiano Ronaldo e foi um dos principais responsáveis pelo seu menor rendimento. E também Sérgio Oliveira: se foi o melhor na primeira mão, em Turim cotou-se como o elemento que garantiu a posse de bola em situações aflitivas e o grande eixo de desequilíbrio rumo à vitória. E aquela sensação de que, mesmo assim, Sérgio Oliveira continua ainda uns furos abaixo daquilo que se pode tornar. Grande jogador! Grande, grande jogador!

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