A desinformação sobre a pandemia paga-se cara

A desinformação sobre a pandemia paga-se cara

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João Monteiro

Biólogo e doutorando em História da Ciência na FCT-UNL
Fundador da COMCEPT – Comunidade Céptica Portuguesa

No início do ano passado tivemos conhecimento que uma doença respiratória teria tido início no continente asiático e que ameaçava espalhar-se pelo mundo. Dado o contexto de conectividade social, empresarial e económico em que
estamos inseridos, não tardou a que a doença se disseminasse pelo globo adquirindo o estatuto de pandemia.

Para combater as consequências da doença COVID-19, causada pelo coronavírus SARS-CoV-2, os vários governos optaram pela promoção de diversas medidas que, na generalidade dos países, passaram pela recomendação do uso de máscara, desinfeção das mãos e superfícies, distanciamento físico e confinamento. Esperava-se assim conseguir controlar o número de infetados e, por conseguinte, diminuir ou eliminar o número de pessoas internadas em cuidados intensivos e o número de óbitos. O objetivo das medidas era “achatar a curva” do aumento de casos, de modo a que os profissionais de saúde tivessem recursos para tratar todas as pessoas que chegassem aos hospitais. A doença veio a ter consequências na vida de todos nós, principalmente a nível profissional: fosse no aumento do desemprego, na incerteza das consequências para os negócios, ou na mudança para teletrabalho com tudo o que isso implica na gestão da vida familiar.

Como estas medidas afetaram a vida de muitas pessoas, é normal que surgisse descontentamento. Assim é
compreensível que essas pessoas descontentes passassem a dar ouvidos a quem advogava uma narrativa alternativa à
oficial, nomeadamente que a doença tinha sido fabricada ou que não era grave, que não havia necessidade de usar máscara ou de recorrer ao confinamento, entre outras.

Fosse com base em desconhecimento sobre o tema, por acesso a dados incompletos ou enviesados, ou ainda por acreditar em teorias da conspiração, a verdade é que esses grupos partilhavam desinformação, ganhando grande alcance através das redes sociais. Sendo o confinamento o alvo do maior ataque, é hoje inegável que os países que não o praticaram registaram o maior número de casos, ou nos países em que o confinamento foi aligeirado verificou-se um aumento dos números de infetados.

Acontece que quem dissemina desinformação não coloca em risco apenas quem ouve a sua mensagem, pois se os seus ouvintes estiverem infetados acabarão por contagiar as pessoas com quem se cruzam nos poucos momentos em que têm de ir à rua. Estamos perante uma pandemia com consequências sérias para as pessoas e que as podem levar para os cuidados intensivos ou resultar em óbito – no caso dos sobreviventes as sequelas continuarão a sentir-se durante mais tempo.

Após o aligeirar das medidas do confinamento no Natal, o mês de janeiro assistiu ao maior número de casos desde o início da pandemia. Segundo os dados do VOST (https://covid19pt.vost.pt/), na semana de 18 a 24 de janeiro de 2021, registaram-se 1103 óbitos, uma média de 157 óbitos por dia. Assumindo que uma camioneta terá à volta de 60 lugares, estamos a falar do equivalente a um acidente mortal que envolva 2 camionetas e meia durante todos os dias de uma semana! Se um acidente destes acontecesse ao longo de uma semana, seria considerado uma tragédia. Uma parte da responsabilidade do aumento
de casos recai por isso sobre quem dissemina desinformação.

Neste contexto, têm estado bem as redes sociais a apagar textos com informação falsa, assim como as plataformas de factchecking, como o Polígrafo, a fazerem verificação de factos, de modo a evitar que mais pessoas sejam enganadas – pois esse engano tem consequências diretas na saúde e na vida das pessoas.

Na semana que passou foi notícia que a plataforma “Médicos pela Verdade” foi encerrada pelos seus proponentes e que vários profissionais dessa plataforma foram alvo de medidas de suspensão pela Ordem dos Médicos. Embora os envolvidos ainda possam recorrer, essa foi uma medida que só pecou por tardia, pois a desinformação não poderia continuar, principalmente durante um período em que atingimos um pico no número de casos. É de lamentar que os profissionais que encabeçaram o movimento não se tenham retratado e vindo a público pedir desculpas pelo engano. Errar é humano e por isso não deveria custar reconhecê-lo.
Em contraponto, sugiro que se ouça quem saiba: os epidemiologistas, os profissionais de saúde pública ou os
virologistas. Trata-se apenas de saber escolher as fontes
credíveis de modo a estarmos bem informados. Até
porque a desinformação sobre a pandemia paga-se cara – paga-se com a nossa saúde.

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