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Salvador Santos

Gestor Cultural

[arm_drip_content id=’1′]1. A ópera-bufa com desfecho trágico-cómico em que se transformou a construção do Centro Cultural diversas vezes anunciado com grande ressonância mediática para a beira-rio do centro histórico de Gaia, atravessando dois presidentes e vários executivos camarários, acabando por “cair nos braços” de um grupo empresarial que ignora olimpicamente a sua componente cultural, parece ter uma nova temporada ainda sem “guião” mas ao jeito das grandes farsas com protagonistas pouco inspirados. Como estamos lembrados, na sequência do sentido mercantilista daquele grupo e da falta de coragem ou de visão estratégica da autarquia, aquilo a que chamaram Centro Cultural ficou definitivamente “encalhado” entre um hotel de luxo e um supermercado grossista e reduzido a algumas “lojas culturais”, com uma área total de 675 m2, que ficaram à responsabilidade da Câmara Municipal. As “lojas” estão lá, mas continuam vazias de “cultura”. E até hoje ninguém (?) conhece o destino que a edilidade lhes reserva. Será por falta de ideias? Se assim for, aqui ficam algumas “a custo zero”: i) uma oficina das letras, espaço de discussão e reflexão sobre o nosso maior bem identitário – a língua portuguesa –, que desenvolva um programa de promoção da leitura e da escrita; ii) uma galeria de arte contemporânea destinada às primeiras exposições de artistas emergentes e consequente aquisição de uma obra de cada autor por parte do município, visando a constituição de uma coleção de arte própria; iii) uma livraria para apresentação e venda exclusiva de títulos de autores lusófonos; iv) um polo da biblioteca municipal, com literatura temática sobre o concelho e a região. Querem mais ideias?!…

2. No centro histórico de Gaia existe agora, desde o passado dia 31 de agosto, uma infraestrutura “cultural” ligada ao vinho, que segundo os seus promotores é capaz de gerar 350 postos de trabalho num concelho que tem o maior índice de desempregados a nível nacional. É certo que o recrutamento de pessoal é feito em articulação com o Instituto de Emprego e Formação Profissional, mas a percentagem dos trabalhadores inscritos no Centro de Emprego de Gaia que tiveram até agora a sorte de serem recrutados é mínima. Ou seja, Gaia não ganhou empregos e perdeu património com o Wold of Wine, empreendimento que levou à destruição de parte significativa de uma das mais belas paisagens urbanas do mundo. O conjunto das Caves de Vinho do Porto supera, em muito, algumas das Caves Vinícolas por essa Europa fora, classificadas pela UNESCO, que não têm nem de perto nem de longe a dimensão e a história das que preenchem a quase totalidade do miolo do centro histórico de Gaia. E não será que estamos a comprometer de vez a sua classificação como Património Mundial, com este e outros investimentos privados que se avizinham? Estes investimentos traduzir-se-ão em quê? Na valorização do nosso centro histórico, preservando a sua memória e caráter, ou, pelo contrário, abrirão caminho à delapidação de uma das maiores riquezas patrimoniais que nos foi legada e que temos como missão transmitir aos vindouros em estado que não nos envergonhe como usufrutuários e fiéis depositários da nossa memória coletiva?!

3. Gaia decidiu promover-se como a “casa do vinho do Porto”, talvez porque já não possa reclamar-se como a Cidade das Caves de Vinho do Porto. Na verdade, não é destruindo os armazéns desativados que preservamos a nossa memória coletiva, mas sim mantendo a sua estrutura arquitetónica e revocacionando o espaço interior (sem modernices desadequadas) para uma oferta cultural diversificada que integre de forma holística todo o património local. Daí, das Caves de Vinho do Porto, a cidade devia aproximar-se mais do rio e do mar, abraçando a frente ribeirinha até Crestuma e Lever e espraiando-se pelas margens do oceano até São Felix da Marinha, criando eixos temáticos que atravessem todo o concelho de nascente a poente, conjugando a economia, a ciência, a educação, as artes e a cultura. Gaia não pode preocupar-se com turismo de massas, mas sim em ser uma terra atrativa para todos!

4. O modelo de negócio que encerra a construção do Centro Cultural (e de Congressos!), a conceber pelo premiadíssimo arquiteto Souto Moura, é mais um investimento privado que nos levanta grandes dúvidas. Não está em causa a competência deste Pritzker da arquitetura, mas saber quem é o autor do caderno de encargos que define o programa preliminar e os parâmetros do projeto, de acordo com a utilização pretendida e os seus objetivos prioritários, porque é na especificidade e nos condicionalismos de cada projeto que se estabelece uma estratégia de intervenção. Tememos que esta nova infraestrutura acabe por se destinar quase exclusivamente à realização de congressos e não (também) à prossecução de um programa cultural vasto e abrangente, dotado de todas as valências necessárias ao bom acolhimento e criação das mais diversas produções de artes de palco. Se assim for, caso o programa  a desenhar seja apenas ditado por uma visão mercantilista da cultura, estaremos condenados a uma oferta “comercialóide” de entretenimento, assente numa atividade “revisteira, pimba e ligeira”, voltada exclusivamente para o lucro e que não responda às necessidades culturais do município de Gaia e às exigências que se colocam nos nossos dias ao desenvolvimento de uma programação moderna, inovadora e diversificada, e centrada no apoio à criação artística, que estabeleça e aprofunde relações privilegiadas com a comunidade local e abra novos horizontes aos públicos e artistas mais jovens! Sinceramente, esperamos estar errados!

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