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Contrato jogadores de top e um treinador bestial: depois é só estalar os dedos

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Gil Nunes

Jornalista

A queda do Benfica – que problemas à parte tem mesmo, e de longe, o melhor plantel do campeonato português – era algo de previsível. O problema de vem de trás. Da temporada passada. Altura em que foi contratado Jesus, envolto numa onda messiânica que resolveria todos os problemas e mais alguns, mesmo aqueles que não existiam. Porque a questão é mesmo essa: Jesus veio resolver problemas que não existiam. Que traria consigo grandes jogadores, que logo colocariam o Benfica num patamar de excelência europeia. Esqueceram-se foi do dito “bloco central”. Que até trabalhava bem.
O grosso da coluna. Pizzi, Rafa, Rúben Dias e demais. Não vale a pena pensar-se no conceito de equipa quando, de antemão, o Benfica desta temporada foi construído sobre dois blocos. Por muito robustos que sejam ambos os blocos, a estrutura acaba sempre por ruir. O que se passou em Alvalade foi, antes de tudo, um somatório de desatenções individuais que desaguaram na vitória leonina obtida já perto do apito final. E os sítios da especialidade dizem tudo: não faz sentido jogadores da craveira de Darwin, Pizzi ou Gabriel somarem, na primeira parte, quase trinta perdas de bola. Em condições normais, tal não acontece. Não há tática que resista.
Tal como fez o F.C.Porto na Taça da Liga, o Benfica apresentou um esquema tático parecido com o do Sporting com o intuito de o anular. Ou seja, um 3x4x3 que é na verdade um 5x2x3. Não deixa de ser curioso que a receita foi muito idêntica entre dragões e águias: encaixar no esquema do Sporting e deixar que a componente individual se fosse sobrepondo à coletiva, isto num pensamento que se traduz também na existência significativa de duelos individuais. É claro que isto não é assim tão linear porque, se assim fosse, as equipas imitavam-se umas as outras e conseguiam anular-se. Depois, o Sporting também já estava preparado para enfrentar tal estratégia.
E os leões apresentam características muito interessantes no seu jogo: desde logo a mobilidade da sua frente de ataque (laterais incluídos), com destaque para a grande versatilidade de Tiago Tomás. O jovem leão é incansável, está em todo o lado, e mesmo nas bolas paradas apresenta já rotinas assinaláveis. A sua ascensão não surpreende e, numa partida maioritariamente mal jogada, as suas movimentações representaram uma pedrada no charco no desenvolvimento de uma partida nem sempre bem jogada.
No entanto, a pedra de toque que fez a diferença foi a colocação de Matheus Nunes ao lado de João Palhinha. Com o duo dinâmica a garantir solidez nas perdas e a conseguir chegar-se a zonas mais dianteiras, o Sporting ganhou supremacia assinalável, sobretudo na fase final da partida. Uma vitória muito importante para as contas de um campeonato que continua a não ter os leões como principais favoritos à vitória, mesmo que ainda a lógica natural tende a ser contrariada. O Sporting joga muito, joga bem, tem estratégia e sabe o que quer dentro de campo. E, mesmo fora de campo, a recorrente lavandaria de comentários parece ter sido estancada: em prol de pontos, muitos pontos. E liderança incontestável.
Mas atenção ao Benfica que, valha a verdade, continua a ter o melhor plantel do campeonato português e a ser um sério candidato ao título. Se Éwerthon Cebolinha é porventura o maior desequilibrador do campeonato português e Darwin Nunez um achado em termos de potencial, também Waldschmidt se afirma como um jogador de rara inteligência no preenchimento dos espaços. Só na linha da frente os encarnados têm argumentos para dar e vender e, verdade seja dita, até que nem precisam de um coletivo muito forte. Mesmo a pequena desorganização, quando devidamente personificada por intérpretes do género, pode representar um excelente caminho para o êxito, especialmente quando os adversários diretos não têm tanta qualidade em termos individuais.
Seja como for, o problema do Benfica não é o seu terceiro lugar nem a sua desvantagem de nove pontos em relação ao líder. Porque isso é mau mas não é nenhum cataclismo. O problema são os milhões de euros investidos numa equipa que está em terceiro lugar e que no ano passado, por esta altura, era líder do campeonato. O problema são os milhões de euros investidos com o propósito de se transformar, num curto espaço de tempo, uma boa equipa numa superequipa. Como se fosse apenas necessário contratar-se jogadores de renome e um técnico bestial. A ordem natural das coisas não funciona assim. E a ordem natural das coisas, mais do que qualquer tática, tem afundado o Benfica jogo após jogo. E a grande questão é mesmo a antítese de tudo isto: mesmo mergulhado em problemas, o Benfica tem condições e plantel para conquistar o título nacional. O erro pode transformar-se em vitória ao som da ironia do destino. É um Benfica que ninguém entende. É um Benfica que não se entende a si próprio.

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